segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O último grito de liberdade





Há um tempo escrevi uma coluna, quando da morte de David Bowie, sobre artistas que, diante do finitude da vida, produzem uma magnífica obra final, um epitáfio cultural para ser apreciado no pós-morte, como o próprio Bowie, e outros, como o cantor Leonard Cohen e o cineasta Robert Altman. Aqui também se enquadra o diretor polonês Andrzej Wajda, falecido em 2016.
Wajda sempre foi um crítico da política polonesa e do caráter totalitário que esta assumiu no século XX, no período pós-guerra. É nesse recorte histórico que está sua angústia produtiva. Sua persona cinematográfica sempre orbitou em torno da história como movimento cíclico de sistemas sociais. Mesmo assim, o mestre do cinema não está interessado em demonizar a política, mas em mostrar como que a Liberdade (artística ou ideológica) é um conceito caro quando não se enquadra a determinados interesses, seja de que espectro político for. Em tempos de censura e boicote a obras e exposições no Brasil, que incomodam pelo simples fato de incomodar, nada mais atual.
Em Afterimage (2016), seu último filme, o cineasta conta a história biográfica de Wladyslaw Strzeminski, um dos mais importantes artistas da Europa no século XX. Pintor, escritor e professor, Strzeminski criou a Escola de Belas Artes de Lodz e o conceito de “Pós-imagem” nas artes. Nesse caso, a pós-imagem (afterimage) é o reflexo que fica no espectro ocular, quando viramos os olhos de determinado objeto, por alguns segundos. É nesse aspecto fisiológico que sua teoria estabelece paralelos sobre o entendimento geral das artes.
Contudo, Strzeminski tem um fim trágico. Foi praticamente relegado ao anonimato pelo partido trabalhista, que assumiu o governo na década de 1940, por não se enquadrar em um patético esforço nacionalista de exaltação pública. É a história de um herói de guerra (que perdeu o braço e a perna em conflitos) e um grande artista, que morre na miséria e humilhado por não se dobrar ao regime.
O trabalo é notável pela câmera conservadora e correta do diretor e do trabalho magnífico do ator Boguslaw Linda (que trabalhou com Wajda em O Homem de Ferro e Danton) como Wladyslaw. A reconstituição de época é fantástica, atenta aos pequenos detalhes da época, como figurino, cenários e comportamentos. E a fotografia é bela por estabelecer o cinza e a distância simbólica das pinturas como críticas à ditadura imposta. O trabalho do artista não é tão importante, aqui, quanto tudo que ele sofreu nas mãos de burocratas totalitários. Trata-se de um libelo contra a manipulação do fazer artístico. Não é a toa que, em uma das cenas mais simbolicamente determinantes do filme, o pintor é impedido de trabalhar por um imenso clarão vermelho de um cartaz de propaganda stalinista, que invade sua janela. Ele, então, decide romper metaforicamente e simbolicamente com esse bloqueio, ao rasgar a bandeira com as muletas.
Meu único senão em relação à obra é o fato de Wajda pesar um pouco a mão na hora de gerar os conflitos da história, com alguns diálogos forçadamente clichês. Fora isso é uma obra exemplar e um epitáfio honesto para um grande artista, que dedicou sua vida a favor da liberdade, em todas as suas vertentes. O filme ainda está em cartaz no cine Líbero Luxardo, do Centur, e será exibido nesta quarta-feira (20), às 20h, além de quinta a domingo, e ainda no dia 27 de setembro, às 18h. Programa imperdível.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Terror Original




Em 1984, Stephen King publicou o livro que serviria de inspiração para várias histórias sobrenaturais protagonizadas por crianças: It – A Obra Prima do Medo. A trama, muito copiada pelo sucesso Stranger Things, conta com 6 meninos e 1 menina, que confrontam unidos uma força demoníaca em forma de palhaço, em uma pequena cidade americana. A narrativa já serviu para criar uma minissérie em 1990, que tinha altos e baixos, mas assustou uma geração de garotos (como eu).
Por isso, torcemos o nariz quando foi anunciada uma nova versão, comandada pelo diretor Andy Muschietti (que só tinha dirigido o ótimo curta Mamá e o longa-metragem ruim Mama) . Mas bastou a introdução do filme It – A Coisa (2017), para as desconfianças se dissiparem. A cena é tensa e chocante e a aparição de Pennywise faz você se segurar na cadeira.  O ator Bill Skarsgard é a própria encarnação do mal e rivaliza diretamente com a icônica interpretação de Tim Curry na primeira adaptação.
O elenco infantil é ótimo, tem boa interação e desenvoltura juntos. Isso não seria possível se o roteiro não conseguisse deixar a construção da relação do grupo tão natural. Cada uma delas tem espaço para desenvolver seu próprio arco dramático e isso é importante para nos preocuparmos com a jornada deles. E It sempre foi uma metáfora para os medos da passagem da infância para a adolescência e como eles encaram isso.
A versão de Muschietti reforça isso: dos temores mais naturais, como as mudanças físicas e sexuais, os terríveis, como o bullying, racismo e os abusos sexuais e psicológicos. O diretor faz isso com uma bem vinda sutileza e recorrendo a símbolos conectados à mente dos pequenos, como o desvio no olhar de um quadro feio, a primeira menstruação ou a dor de um luto, além de recorrer a uma estética própria, como a câmera sempre sob o olhar deles e uma trilha sonora ingênua,  entrecortada por diálogos e cenas de brincadeiras divertidas. Afinal, mesmo encarando um monstro terrível, eles ainda são crianças. Sem contar que todos os adultos se tornam anônimos ou indiferentes a toda a brutalidade que ocorre em volta deles (o próprio King criou algo parecido no conto que deu origem ao cultuado Conta Comigo).
Palmas ainda para o design de produção. A casa dos personagens, esgotos e escola se tornam lugares apertados, sombrios, escuros e opressores. Os efeitos especiais funcionam e a maquiagem de Pennywise é perfeita. A prótese de cabeça, o olhar estrábico e os dentes afiados, com uma fala quase infantil, deixa a entidade com uma persona aterrorizante.  Para terminar a decisão mais que acertada de localizar a trama na década de 1980, que serve tanto como homenagem ao livro, quanto às produções da época como Os Gonnies (do qual considero este o sucessor espiritual). O diretor acerta ainda em deixar a trama dos adultos, quando eles voltam à cidade 27 anos depois, no livro, para uma possível continuação. Com novas angústias, como a depressão, o alcoolismo e o fracasso financeiro. Afinal, em cada fase da vida, temos nossos próprios fantasmas para lidar.  

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Há um novo rei nas telas



Li que Vladimir Brichta não era a primeira opção para ser o personagem-título de Bingo – O Rei das Manhãs (2017). O papel estava reservado para Wagner Moura, que por problemas de agenda, teve de dispensar o papel, indicando o amigo. E o destino foi certeiro: Brichta está simplesmente fabuloso como o alter-ego fictício de Arlindo Barreto (aqui chamado Augusto Resende), que ficou famoso na TV como o palhaço Bozo (trocado de nome por causa dos direitos autorais) e acabou afundando sua carreira em uma espiral de sexo e drogas, até se “reencontrar” como pastor evangélico.
O galã incorpora os trejeitos de Bingo, entre o clown e o cínico, nas falas, gestos e no próprio semblante. É engraçado, charmoso e desbocado na medida certa. E nos momentos mais dramáticos, como na relação com o filho (Cauã Martins, uma revelação) e com a mãe, uma ex-diva do cinema (Ana Lucia Torre), o trabalho também soa natural. Uma interpretação digna de prêmios e eu torço para que a obra tenha carreira internacional. Temos de destacar ainda o trabalho de Leandra Leal, como Lúcia, a diretora evangélica do programa e Augusto Madeira, engraçadíssimo como o cameraman e amigo de farra de Resende.  E não podemos deixar de citar a homenagem não-intencional a Domingos Montagner, que morreu no ano passado e faz uma participação especial como um experiente palhaço de circo, onde começou sua carreira.
A história pitoresca é o veículo certo, ainda, para a estreia na direção do experiente editor Daniel Rezende (responsável pela montagem de filmes como Tropa de Elite, A Árvore da Vida e Robocop). Seu trabalho é irrepreensível, tanto do ponto de vista técnico, quando subjetivo. Ele consegue adicionar camadas de significados às cenas com a consciência de um veterano. Há cenas maravilhosas, como a câmera passeando pelo alto dos prédios e janelas de São Paulo para indicar passagem de tempo e as luzes se apagando em um corredor, enquanto um personagem caminha.
O Figurino, a fotografia e os cenários nos transportam com louvor para a década de 1980, que culturalmente, por si só, já era bem pitoresca, com mulheres seminuas em programas infantis e músicas de protestos embalando as rádios populares. Aliás, a trilha sonora é certeira, com músicas do Titãs, Ritchie e Echo and The Bunnymen  (há uma cena ótima embalada por Bring on the Dancing Horses) e muitos sintetizadores. Enfim, Bingo será, provavelmente, o melhor filme brasileiro de 2017 e um dos melhores do ano. É uma produção inteligente e acessível, e faz parte de uma leva de trabalhos originais que a sétima arte brazuca lançou nos últimos tempos. E se precisamos prestigiar cada vez mais o cinema nacional, temos aqui um excelente motivo.
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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A música como protagonista



Baby Driver (2017) é ótimo como cinema, sem necessariamente ser um filme excelente. Parece contraditório? Não necessariamente. Edgar Wright é um diretor que sabe surpreender. Tem ousadia e domínio técnico das suas obras, como já provou em ótimas produções, como Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso, Scott Pilgrim contra o Mundo e os Heróis da Ressaca. Trabalha bem com montagem rápida e planos ousados. Mas, na sua nova “experiência”, ele leva a sua habilidade técnica a um novo patamar.
Afinal, Wright trabalha, aqui, exclusivamente para a edição de som e montagem. Por isso, é importante destacar ainda o trabalho musical de Steven Price, além da edição de Jonathan Amos e Paul Machliss. O fato do personagem principal ter um problema de audição e ouvir canções no fone de ouvido inteiro é uma desculpa interessante para ter trechos de músicas em quase todas as cenas. E é impressionante como estas casam exatamente com as cenas e os sons ambientes. Desde os pneus de carro que “cantam” em momento de um scratch em uma cena, até o tiroteio que segue o tom da bateria em outra.
Há um plano inteiro com o protagonista andando na rua, em que todo o barulho da cidade e pessoas são incorporados ao ritmo do que toca na trilha sonora, que conta com músicas de Commodores, Barry White e Jon Spencer Blues Explosion. Seria muito justo se houvessem algumas indicações ao Oscar nesses quesitos. Esse trabalho não funcionaria bem se o elenco não “abraçasse” a idéia. E eles aceitam entrar na brincadeira. A inexpressividade de Ansel Elgort cai como uma luva para o seu indiferente personagem, enquanto Kevin Spacey já traz uma persona habitualmente ameaçadora e Jamie Foxx está perfeito como o bandido quase psicopata. Destaque ainda para Lily James e Elza Gonzalez, com personagens femininas fortes, mesmo com personalidades opostas.
Mas o diretor se preocupou tanto com a parte técnica, que o roteiro acabou um pouco negligenciado. Ele homenageia o gênero road movie de assalto, como Caçada de Morte, Os Implacáveis (com direito a closes de volantes, marchas e aceleradores, típicos da obra de Sam Peckimpah) e Drive, mas se perde nas próprias influências, ao situar a narrativa no mais do mesmo. A história: um jovem habilidoso no volante, mas com problemas psicológicos e auditivos causados por um acidente trágico é forçado a trabalhar para uma organização criminosa especializada em assaltos a bancos. Ao mesmo tempo, ele se apaixona por uma garçonete e precisa protegê-la dos bandidos, além de salvar a própria pele.
E é isso. Nada de novo. Há uma necessidade de dividir a narrativa em atos, e alguns funcionam bem. Outros são mais arrastados, prejudicando a produção nas suas duas horas de duração. Mesmo assim, é uma experiência cinematográfica como poucas, para se apreciar e depois estudá-la junto às teorias da sétima arte. E depois baixar a trilha sonora, para repetir os movimentos de Baby. Só não escute enquanto estiver dirigindo.Pode ser arriscado.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Entre porcos, formatos e polêmicas

Em maio deste ano, Okja (2017) causou polêmica no Festival de Cannes. Para começar, é um dos lançamentos da Netflix no serviço de streaming (entrou no catálogo no dia 1º de junho). E o filme do sul-coreano Bong Joon-ho concorreu à Palma de Ouro mesmo sem chegar primeiro aos cinemas e, sim, nos televisores dos assinantes do serviço. O presidente do Júri, o cineasta Pedro Almodovar, disse que a obra não deveria estar ali por ser feita para a TV. A exibição foi vaiada. E as autoridades francesas reclamaram que as leis do País não estavam sendo cumpridas (a carência de um filme ser lançado no cinema e liberado para os canais de televisão, por lá, é de 36 meses).
Discussões sobre acesso de produções cinematográficas à parte - já que se trata de um tema complexo que envolve debates sobre democratização cultural, enquadramentos e adaptações de narrativas -, a questão é que temos um bom filme, no fim das contas. Isso se deve ao talento de Joon-Ho (que fez coisas excelentes como Mother e Memórias de um Assassino). Ele sabe muito bem para qual tipo de mídia está filmando (mas nem pense em assistir em um celular!). Por isso, não investe em grandes espaços e muita profundidade de campo.
Pelo contrário, filma quase tudo em planos fechados ou pequenos cenários. Bem diferente do que fez no ótimo O Hospedeiro, onde a cidade de Seul é um personagem da história. Entretanto, adequado ao outro grande filme que dirigiu, O Expresso do Amanhã, feito quase todo em um trem. As exceções são as cenas onde rola um carnaval de rua e o abatedouro que parece um campo de concentração nazista. Mas há enquadramentos ousados, como um filmado de cima para baixo, reforçando o vazio existencial de um personagem.
O elenco estelar todo interpreta no limite da caricatura (menos Seo-Hyun Ahn, a protagonista mirim, um oásis de normalidade em meio ao pastiche), mas faz parte da intenção do diretor/roteirista, onde o esquisito reforça as críticas sociais, que vão do mundo corporativo, as indústrias alimentícias, a alienação coletiva e o nazismo. Sobra até para as entidades de defesa dos animais. Tilda Swinton está ótima como a empresária ambiciosa e burra e sua contrapartida gêmea, completamente oposta. Paul Dano tenta dar um certo ar de elegância e poder, que não existe, para o ativista ambiental. O personagem mais estranho é o mimado apresentador de TV e “especialista” em reino animal, feito pelo astro Jake Gyllenhall, que apela para maneirismos na fala e nos trejeitos.
É uma pena que o roteiro tenha problemas de andamento e seja pobre em recursos narrativos (a explicação para a criação das fazendas de “superporcos” não convence), empobrecendo bastante a experiência pretendida pelo coreano. Por outro lado, é importante destacar os efeitos especiais, que transformam os porcos geneticamente modificados em criaturas simpáticas e desengonçadas, mas extremamente reais. As últimas cenas delas causam um grande impacto no espectador, mostrando como são inteligentes e sabem do seu destino cruel.
Independente da plataforma em que foi lançado, Okja só mostra que é possível fazer bons filmes fora do esquema de distribuição das grandes redes de cinema. É claro que a melhor experiência para assistir um filme (e a mais desejada pelos criadores) ainda é a tela grande. Mas as alternativas estão na mesa e ver uma produção como essa na sala de casa não inviabiliza sua importância como produção cultural audiovisual.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O filme certo, na hora certa



Demorou 75 anos para que a princesa Diana saísse de Themiscyra e invadisse os cinemas. E a chegada da Mulher Maravilha (2017) à tela grande não poderia ter vindo em melhor hora. Bom para a Warner e a DC, que precisavam de um bom filme para emplacar o universo cinematográfico da editora, capenga até então, e para a diretora Patty Jenkins, que lutou muito para tirar a história do papel e está sendo devidamente reconhecida. E excelente também para os fãs de cinema, com um ótimo entretenimento e um importante documento das transformações sociais atuais.
 O mais importante é que o filme abandona o tom obscuro dos trabalhos recentes da Warner/DC (uma série de “bombas” como Batman vs Superman e Esquadrão Suicida) e assume uma postura mais “matinê” de aventura, como os clássicos dos anos 1970 e 1980, como Fúria de Titãs e, claro, Superman (1978), o melhor filme de super-heróis da história. Não é à toa que, em várias cenas, Jenkins homenageia Richard Donner com planos praticamente refilmados do clássico. E assim como Donner trouxe um encantamento aos cinéfilos com planos de Clark Kent voando, aqui é fascinante ver uma mulher dominando todos os quadros da película com força e personalidade.
 Os méritos, claro, são de Gal Gadot, que consegue transmitir toda a raiva, dúvidas e ingenuidade da personagem sem cair em maneirismos, mesmo sendo visivelmente limitada, ainda, como atriz. E ela não está sozinha. Chris Pine faz o espião Steve Trevor parecer um Indiana Jones com cara de galã da Era de Ouro de Hollywood, sem parecer machista e também ganha personalidade própria, deixando o romance com a protagonista soar natural. Sem contar Robin Wright e Connie Nielsen, fabulosas como as líderes das guerreiras amazonas.
 O roteiro funciona, como já disse, por deixar fluir o clima de aventura, mas peca em um dos pontos essenciais: a construção dos vilões, que são caricatos ao extremo. Outro problema é a iluminação de algumas cenas, excessivamente escuras, talvez uma influência de Zack Snyder como produtor. Mesmo assim, o diretor de fotografia Matthew Jensen é inteligente em criar contrastes entre o clima colorido e solar da terra das Amazonas com o tom cinzento da Europa na Primeira Guerra Mundial.
 Mulher Maravilha é o filme certo, na hora certa, principalmente como ferramenta de inclusão e representatividade feminista. Assim como os quadrinhos causaram encantamento e ajudaram a formar intelectualmente as crianças por gerações, o cinema de herói tem papel fundamental nessa construção atualmente, com o domínio das HQs na tela grande. Não é um filme perfeito, mas é perfeitamente adequado para o tempo atual. Eu estou ansioso, desde já, para um filme de ação focado nas Amazonas. E vocês?   

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desrespeito ao próprio legado





10 em cada 10 cinéfilos e críticos consideram o primeiro Alien, de 1979, uma obra-prima do cinema. Os motivos são diversos, mas principalmente pelo roteiro bem construído e o clima de claustrofobia e medo que o diretor Ridley Scott conseguiu impor a uma das maiores produções de ficção científica.  Por isso, foi com empolgação que recebemos a notícia que Scott voltaria à mitologia que criou, com Prometheus (2012). Infelizmente, a frustração se fez presente quando os créditos subiram. O filme era fraco e não tinha quase nada da produção original.
Pois bem, o diretor voltou definitivamente ao cânone dos xenomorfos este ano com Alien Covenant. E o resultado não podia ser pior. Scott desrespeita a história de Dan O’Bannon e o trabalho magistral de arte do H.R. Giger. Pouco, muito pouco sobrou disso tudo. Os monstros são feitos de um CGI sem criatividade, a fotografia é escura e preguiçosa, e a direção é péssima. Teve momentos em que eu não entendia o que estava acontecendo e nem quem tinha morrido. E isso é péssimo vindo de um cara que dirigiu outros grandes filmes, como Blade Runner, Thelma e Louise e Gladiador (mas também cometeu coisas horríveis como Até o Limite da Honra e Hannibal).
A narrativa não ajuda muito também. Os personagens são esquecíveis, a protagonista (vivida por Katherine Waterston) não tem carisma nenhum (saudades, Sigouney Weaver). Nem Michael Fassbender salva, já que seus androides são programados com filosofias clichê (até os robôs da trilogia original eram melhores). Como se não bastasse, o clímax é enfadonho e sem sentido e as ações não se justificam. Chega a ser ridículo um exemplar da saga ter como ameaça pólens alienígenas (?!).  Fora que há furos inacreditáveis. Um exemplo é o tempo de incubação dos monstros nos hospedeiros humanos. John Hurt demorou horas para ter o peito aberto por um xenomorfo há 4 décadas. Hoje, basta alguns segundos. E a cena do simbionte sendo revelado não tem um décimo do impacto original.
E se você tem ao menos a esperança de saber o que aconteceu após o final de Prometheus, esquece também.  Não há a menor intenção de continuar aquela história e, para isso, a revelação do destino da personagem sobrevivente lá atrás não se sustenta, infelizmente, deixando os poucos fãs da obra anterior do cineasta bem frustrados. Pior que Scott já anunciou uma nova continuação para 2019, não se importando nem um pouco em destruir o próprio legado. . 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A morte lhe cai bem




Quando escrevi sobre Rua Cloverfield, 10 (Cloverfield Lane, 2016), expliquei que admirava diretores de cinema que conseguem fazer bons filmes de suspense e terror em cenários restritos. Algo que James Wan (Sobrenatural, Invocação do Mal) faz com competência e que M. Night Shyamalan tentou em Fragmentado (Split, 2017), apesar de problemas no roteiro, sobretudo. E agora o norueguês Andre Øvredal, com apenas um longa-metragem no currículo (Caçadores de Trolls, 2010), se mostra eficiente no assunto com A Autópsia (The Autopsy of Jane Doe, 2017).
A Autópsia tem apenas um necrotério como locação e foca totalmente na relação entre um médico legista (O veterano Brian Cox) e o filho, que trabalha como seu assistente na análise de cadáveres (Emily Hitsch, que já foi uma promessa em Hollywood quando fez Na Natureza Selvagem e Speed Racer).  O trabalho ia bem, até que eles recebem uma missão do xerife da cidade: identificar a causa da morte de bela jovem, encontrada no porão de uma casa onde ocorreu uma chacina. O cadáver parece completamente intacto e as dificuldades começam à medida que eles o examinam, pois a situação é mais complexa e angustiante do que imaginam.
O thriller trabalha bem a tensão inicial com as descobertas sinistras e apela para um gore intencional e necessário, ao mostrar a dissecação dos corpos em detalhes, com sangue e órgãos expostos deliberadamente. O problema é que o roteiro parece se direcionar para uma trama detetivesca e termina indo para o lado fortemente sobrenatural. Nenhum problema, se a história não decidisse ignorar os elementos da primeira meia hora, como se fossem dois filmes diferentes, ao incluir espíritos e alucinações na equação. A partir daí as motivações surreais e as explicações se tornam meio sem sentido e há diversos furos no roteiro, que são ignorados até o final da película.
Mesmo assim, Øvredal trabalha bem os momentos de tensão, usando elementos simbólicos, como espelhos e, principalmente, sinos de mortos (uma cena, especificamente, é absurdamente amedrontadora), além do próprio necrotério, antigo e nada acolhedor. A trilha sonora é simples e usada com certa parcimônia, o que enriquece a experiência solitária e mórbida do local onde se passa a ação. Enfim, é um daqueles filmes de gênero simples, corretos e que servem como um bom passatempo para uma sessão com pipoca e refrigerante. Isso se você tiver estômago para comer vendo um cérebro sendo aberto, claro.