sábado, 22 de agosto de 2009

Uma pitada de erotismo

Lá pelo início da década de 90, o SBT costumava passar tarde da noite uma sessão de cinema com os filmes mais toscos possíveis. Moleque, sem nada pra fazer no dia seguinte, fingia que estava dormindo para ninguém perturbar e ligava a TV bem na hora. A seleção passava por aquele terror bem trash até as pornochanchadas brasileiras. Aí já viu, né? Audiência garantida.
Lembrei desse fato após folhear a revista SET desse mês, que trouxe uma reportagem sobre a “falta de sacanagem” no cinema nacional. A imagem que ilustrava a página era de um dos filmes mais reprisados na tal sessão: “Histórias que nossas babás não contavam”. Apesar do texto não trazer mais do que duas linhas sobre essa produção dos anos 70, minha cabeça viajou, só recordando das cenas divertidíssimas da sátira erótica do clássico dos irmãos Grimm, “Branca de Neve”, que na versão brasileira, virou uma morena espetacular, chamada Clara das Neves.
Na história, o príncipe tem um caso com a rainha e, quando o rei morre, ela sugere uma união. O príncipe aceita, mas pede a mão da princesa, pois só pode se casar com uma donzela, com manda a tradição. A rainha fica furiosa e manda um temível caçador de veados, interpretado por Costinha (hilário como sempre), executá-la duas vezes, para acabar com sua reputação e com sua vida. Mas o caçador, bonzinho que só ele, só cumpriu uma parte do trato e a deixou livre para ir “viver” com os sete anões.
Ah, eu disse “sete anões”? Desculpem, quis dizer seis, pois o Zangado não era muito chegado, ao contrário, era ele quem satisfazia os instintos da trupe. E haja competição entre ele e Clara das Neves pela atenção dos pequenos, encantados por finalmente conhecer uma mulher de verdade. As situações eram as mais engraçadas possíveis, com os anões tentando de tudo pra tirar uma lasquinha. Até que um sorteio resolveu a parada e o Dunga garantiu o direito de mostrar a ela que tamanho não é documento.
A trilha sonora também era excelente e algumas das músicas não saíam da cabeça por vários dias. A da abertura já dava o tom da palhaçada: “Se você já desconfiava / Das histórias que as babás contavam / Tinha toda razão / Existe uma outra versão / Como João e Maria / Que faziam bacanal / E a Chapeuzinho Vermelho / Que dava muito pro Lobo Mau”, por aí vai. Outra legal era no desfecho, nada convencional obviamente: “A história da maça é fantasia / Maça igual aquela o papai também comia”. Nota dez (confira abaixo o vídeo da abertura do filme, a música é mais extensa, pois não me lembrava do resto).
Para finalizar, uma consideração: o pessoal da SET acertou em cheio. Filmes assim fazem falta. Não se trata de pornografia ou apelação. Erotismo, sensualidade, picardia, são elementos que estão enraizados na nossa cultura e o cinema sempre mostrou isso. Odeio essa onda moralista, politicamente correta, que inundou o país de uns tempos pra cá. E é um movimento falso, fica só nas palavras, o que dá mais raiva ainda. Ainda bem que temos gente como Hugo Carvana e José Mojica Marins, que conseguem dar uma escapulida e, de vez em quando, nos brindam com ótimos filmes. Já é um alívio. (Texto publicado na coluna Universo Pop desta sexta-feira, dia 21, no caderno Por Aí, do Diário do Pará)

2 comentários:

Anderson Araújo disse...

O cinema brasileiro está mais moralista que beata no Círio, rapaz. Se fosse moralista mas fizesse boas coisas, vá lá. O problema é que são poucas as produções que se aproveitam. Querem se distanciar a legítima pornochanchada, mas só fazem porcaria. Antes as pornochanchadas. Pelo menos tinham mulher pelada e eram divertidas.

Antes que eu me esqueça: Morte ao Cacá Diegues e viva Costinha, o eterno caçador de "A história que nossas babás não contavam".

Abraço.

Carlos Eduardo Vilaça disse...

Fale Anderson, pois é. Esse cinema nacional só quer saber de favelas, bichos mortos e mostrar um lado animalesco, digamos assim, do homem, tipo os filmes do Cláudio Assis e seus seguidores. Falta diversificar, fazer coisas despretensiosas...

E o Costinha arrasa mesmo nesse filme, hehehe. Abração