quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Capital do Pará é atacada por zumbis

Post sensacional publicado pelo jornalista Anderson Araújo (www.bebadogonzo.blogspot.com)

Ninguém sabia que aquele camburão jogado perto dos açaizais faria tanto mal, embora todo mundo tenha achado a substância viscosa e esverdeada nada parecida com óleo, como alguns insistiram em classificar o produto. Dali ao passamento de dona Raimunda, foram apenas três dias, tempo que o fruto contaminado chegou à mesa em forma de vinho, do grosso, feito no fundo do quintal da pequena choupana, na Ilha das Onças.


Logo depois de três colheres, a velha arregalou os olhos, colocou a língua para fora e caiu para trás, numa epilepsia tenebrosa de trançados de pernas, peito arfando e estrebuchos medonhos. O resgate demorou para chegar, como sempre, porém naquele dia a lentidão era maior pois o dia era de festa em Belém: as ruas estavam tomadas de gente e as forças de seguranças empenhadas na grande romaria da padroeira da cidade, naquele segundo domingo de outubro.

Ainda assim, os bombeiros chegaram e colocaram a mulher desacordada na aeronave que em pouco menos de dez minutos já estava pousando perto do hospital onde a mulher arroxeada, de boca preta, olhos virados e desgrenhada tentaria ser salva. Porém esperou quase uma hora no corredor em cima de uma maca imunda, onde sucumbiu antes de dar um espasmo bizarro e soltar um jato de lama negra pela boca, inundando o espaço destinado aos passantes.

Apesar do óbito não chamar atenção de nenhum profissional de saúde, a sujeira foi grande e sobrou para o auxiliar de serviços gerais limpar as imundícies. Reclamando sempre e de escovão nas mãos, ele nem percebeu quando a velha levantou tesa das profundezas do desconhecido e pulou nas suas costas, arrancando de uma vez só um pedaço enorme do seu rosto.

Não demorou muito para Raimunda – ou o que ainda parecia ser de longe a rotunda anciã das Ilhas das Onças – espedaçar o pescoço do servente, a primeira vítima de ataque sem precedentes à capital paraense. Logo alguns homens que velavam seus doentes no corredor tentaram agarrar a mulher lambuzada de sangue e de expressão de cão raivoso. O primeiro desavisado tentou pela frente e foi abocanhado no braço. O segundo teve o dorso arranhado e também foi ferido pelos dentes da velha, que o imprensou contra a parede e o esmagou. Um terceiro ainda tentou bater com uma bandeja, mas escorregou no vômito e ficou indefeso diante da fúria daquilo que já não lembrava uma mulher, mas sim uma fera.

Rápido, o faxineiro morto repetiu a dose: mostrou os mesmos sintomas e trejeitos da velha, levantou ensandecido e, num pique acelerado, alcançou uma morena magra e triste, ao canto da parede, para despedaçá-la como se fora feita de isopor. Em poucos minutos, o corredor do hospital era um deus nos acuda com gente em pânico esmagando doentes caídos no chão, fugindo dos defuntos recentes que estranhamente recuperavam a energia vital, agora tomada de uma espécie de efeito potencializado de uma superdroga sintética e mau humor matutino elevado a níveis humanamente insuportáveis.


O tumulto chegou à portaria do hospital com sons de tiros e mais gente sendo violentada pelos famintos mortos-vivos. Um ladrão, baleado na perna pela polícia poucas horas antes, foi o primeiro a anunciar a novidade para aquela capital brasileira, que jamais ousaria prever um ataque daqueles. O ferido berrou: “Zumbis em Belém. Aaaaaaaaaaaaaaah”. E tentou se esgueirar para se trancar em uma dos encardidos consultórios do Pronto Socorro, sem sucesso por causa da algema. Quando começou a rezar a única oração que sabia, sentiu os dentes de uma adolescente que antes da transformação provavelmente nunca iria mordê-lo e, se viesse a cometer tal sandice, o larápio iria adorar.

Os primeiros tiros foram dados pelos seguranças, mas a turba de quem fugia cegamente e de quem perseguia sem motivo aparente já tinha tomado as ruas. Com as ruas entupidas de carros, paralisadas na massa palpável de calor típica da cidade e da movimentação característica dos religiosos em romaria não muito longe dali, foi fácil saciar a vontade de comer miolos e beber sangue dos que buscavam loucamente esse intento.

Muitos fugiram para o local mais correto no momento, rumo à Av. Pedro Miranda, do bairro da Pedreira, do Samba e do Amor. Lá, quarenta e três dias depois, agregaria um foco da resistência, única iniciativa organizada que se teve notícia frente à infecção. Porém, no calor da primeira hora, outros tantos fugitivos e perseguidores seguiram para onde havia o outro tumulto ainda maior, o da massa espremida de gente rezando, pagando promessas e louvando a padroeira.

Nas ruas, ninguém mais se entendia. A polícia atirava para cima com seus velhos 38, lojas eram saqueadas, velhos caíam com seus terços na mão e eram pisoteados, porteiros eram espancados e prédios eram invadidos, motoristas abandonavam carros, crianças se perdiam e viraram alvo fácil dos comedores de gente. Quando os desgovernados zumbis alcançaram o rio de gente da procissão, os devotos acreditaram, de início, ser mais um dos comuns desarranjos na “corda”, um dos elementos essenciais daquela manifestação de religiosidade, onde os pagadores de promessa agradeciam e se sacrificavam para demonstrar amor à Santa de sua melhores preces. Embora os apegados ao cordame estivessem mais tranquilos do que o normal de todos os anos, muita gente jurou vir do epicentro da romaria aquela gritaria soturna e os empurrões, no começo, transformados em tentativas desesperadas de fuga e, em seguida, no que só pode ser nomeado de caos.


A ira de dentes, de uma fome primitiva, desaguando em apocalipse jamais pensado sob o calor tropical de um outubro de orações católicas, atingiu em cheio aquele povo que saíra de casa somente para louvar, mostrar roupas e sapatos novos, ver e ser visto naquele glorioso espetáculo abençoado por Deus. No entanto, onde andaria Deus naquela hora de barbárie, de cenas infernais, como a do pagador da promessa dos caranguejos sendo devorado por três mortos-vivos na Av. Nazaré. Grande parte dos crustáceos, atados ao corpo do homem durante a procissão, tratou de sair de fininho e escorregar para o bueiro mais próximo, enquanto seu dono virava um deliciosa banquete cru sobre o asfalto.

A essa altura, a balbúrdia era tamanha que o arcebispo reuniu guardas e devotos escolhidos a esmo para salvar a imagem peregrina e tentar abrigo na Basílica. O pequeno exército de cruzados do improviso rasgou o mar humano à força, conseguindo chegar ao templo, protegendo a santinha, que não era a original, porém, merecia toda honra e esforço feito pelos heróis do triste episódio. Muitos deles se perderam no caminho e o líder da procissão chegou rasgado, esbaforido, imundo, irreconhecível até o destino que o protegeria. Tão diferente da impoluta figura que iniciara a caminhada benta que precisou implorar para entrar na casa do Senhor, guardada por ele mesmo com tanta fé nos últimos anos. Na nave central, um punhado de beatas, religiosos e alguns leigos desconhecidos morrendo de medo do fim do mundo que estava a precipitar atrás do imenso portão de entrada da igreja

Do lado de fora, tapetes vermelhos gente de pisoteada, incêndios de todos os tamanhos em lojas e prédios ao redor, sirenes e a imprensa atordoada tentando mostrar a dimensão do escandaloso massacre iniciado com três simples e inocentes colheradas de açaí. Os canais enviaram inadvertidamente suas jovens equipes, capitaneadas por repórteres nada experientes. Diante da catástrofe, os profissionais da imprensa não conseguiram narrar com propriedade a dimensão do problema. Alguns serviram de chacota durante as transmissões ao vivo, pois viraram comida para os mortos-vivos muito mortos de fome. E o riso do telespectador chegava frouxo, porque na tela da TV, tudo parecia uma comédia absurda e fingida para quem ainda não havia sido atingido pela hecatombe exclusiva e infelizmente parauara.

A partir de então as coisas só pioraram. Poucos dias à frente, a principal autoridade da cidade, acostumada à distância, tratou de levantar vôo em um helicóptero rumo à Miami, lugar mais longe em que o ignóbil prefeito lembrou como refúgio. Os policiais militares trataram de se entocar nas suas casas para defender suas famílias, abandonando suas funções de agentes públicos. Da Tribuna do parlamento, deputados de oposição ao governo exigiram a deposição de todo o Executivo estadual e uma intervenção federal, sempre comparando com os feitos da gestão passada muito mais ágil em todos os sentidos, inclusive em um ataque inédito de zumbis. Porém, os raríssimos políticos ainda vivos ou não transformados em zumbis não escondiam em seus olhos: o pavor tomara conta de todos, sem exceção, em todos os extratos sociais.


Com o tempo se adiantando e as esperanças cada vez menos críveis, quem pôde se esconder em matagais insuspeitos partiu de mala e cuia, sem ter sossego ou êxito na fuga, porque poucos lugares ainda não tinham sido minados pelo que uns chamavam de doença, outros de maldição, outros de delírio coletivo e todos de desgraça absoluta naquela terra que de desgraças estava cheia, mas as absorvia aos pouquinhos, no cotidiano.

Nos condomínios de luxo, fortunas foram gastas para reforçar a segurança, mas nada adiantou. Não havia trabalhadores corajosos o suficiente para resguardar as portarias de trincheiras, cercas elétricas, canhões, ninhos de metralhadores e tanto apetrechos inúteis à ira surda e cega dos que insistiam em não morrer e levar os vivos para o seu time. Barões se trancaram nas suas mansões, ligando para Deus e o mundo em busca de socorro, sem nenhuma resposta convincente de ajuda. Os mais desesperados servirão jantares deliciosos, feitos apenas em grandes festas, para a família inteira, sem avisar aos seus queridos que os alimentos estavam empestados de veneno. Banhados e bem vestidos, morriam com certa dignidade, sentados às suas mesas de 15 lugares.

A solução final foi uma questão de tempo. Na verdade, pouco mais de dois meses após o caso de dona Raimunda. A urgência da situação, a pressão dos outros Estados devido ao risco de verem suas populações contaminadas, a grita geral da comunidade internacional diante do novo modelo de holocausto antes visto apenas nos filme de George Romero, a falta de experiência diante do cataclismo social travestido de problema de saúde pública... Tudo, absolutamente tudo, levou a uma decisão extrema das autoridades.

Quando a primeira bomba foi largada do avião, como um ovo posto por uma galinha gigante, o Ver-o-Peso estava em paz, como nunca esteve, com apenas alguns zumbis cambaleantes zanzando pela área, igual faziam os bêbados antes da primeira mulher se contaminar. A aurora anunciava mais um dia de sol a pino, como tantos outros reclamados pelos belenenses em tempos já esquecidos. Naquela hora, os sobreviventes da Pedreira já estavam de pé rezando a oração de toda manhã para a volta da normalidade. Os clarões tomaram conta de tudo e puseram fim a mais de 400 anos de história de uma cidade. Um capital, praticamente, desconhecida para o resto do Brasil e que, naquele sábado de dezembro, seria extirpada totalmente da memória da nação para ser rememorada vagamente como o local em que a morte caminhou de cabeça semi-erguida, teimosamente, transformando vivos em um meio termo incômodo e deixando para trás uma lição para ninguém aprender.

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