sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pôsteres

Na era da internet, colocar um filme em evidência é muito fácil. Notícias saem a cada instante em sites especializados em cinema, fora os teasers, vídeos de bastidores, entrevistas... A divulgação é maciça. O pessoal de marketing trabalha pesado para vender com sucesso um longa-metragem e, geralmente, consegue, mesmo quando a qualidade da obra é discutível. Agora, imagine antigamente, sem todas as inúmeras ferramentas tecnológicas disponíveis hoje. Além do carisma dos atores principais e da boa reputação dos diretores, os estúdios contavam apenas com uma plataforma para chamar a atenção do público: os pôsteres.
Por esse ângulo, o pôster, embora ainda seja produzido normalmente, é uma arte que perdeu um pouco do fascínio e da importância de tempos passados. Ele deixou de ser “a” imagem de um filme para ser mais um detalhe de um extenso material de divulgação. E isso pode ser constatado com um simples jogo de memória: diga um pôster inesquecível, que tenha ficado na sua cabeça nos últimos dez anos. Difícil, não? Agora lembre de filmes clássicos como Tubarão, O Bebê de Rosemary, O Exorcista... Duvido que eles não estejam em algum lugar do seu subconsciente.
Fazer um pôster é trabalho para verdadeiros artistas: resumir em um desenho, em uma pintura, toda a carga simbólica de um longa-metragem. Exige criatividade e talento. São obras de arte. Não é à toa que os mais clássicos valem uma fortuna para colecionadores. E também não é coincidência o fato de os citados no parágrafo acima terem em comum o gênero a que pertencem. É no suspense/horror que os artistas mais desenvolveram sua capacidade, com a representação dos medos e delírios ali expostos, seja na forma de monstros, assassinos, fantasmas, demônios ou outros seres que povoaram a imaginação de cineastas e dos espectadores ao longo dos anos.
O expressionismo alemão é, talvez, um dos principais expoentes dessa era clássica dos pôsteres, acompanhando à perfeição obras como M – O vampiro de Dusseldorf, Nosferatu, O Gabinete do doutor Caligari... Fora a inventividade do chamado segundo escalão do cinema norte-americano. Os filmes B marcaram época com seus pôsteres muitas vezes bem melhores do que os próprios filmes. Sem contar que a arte em cor constrastava com a película em preto e branco. Uma picaretagem digna dos produtos em questão e que entraram para o folclore cinematográfico.
Quando era pequeno, meu irmão inventou de montar uma locadora de VHS em um cômodo anexo à casa do meu avô e vivia tentando arranjar pôsteres para colocar nas paredes. A ideia não durou muito, até se converteu para games antes de encerrar, mas era bacana, curtia ver aqueles filmes à mostra. E que adolescente não tapou todos os espaços livres do seu quarto com pôsteres? Eles têm, portanto, valor sentimental para muita gente e é uma pena que esse trabalho hoje não seja mais valorizado, deixando de lado o traço humano pela rapidez e artificialidade de um programa de computador para a sua concepção. Triste era moderna...


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobrevivência

Situações extremas tendem a revelar a verdadeira face das pessoas. Se esconder atrás de palavras não é mais uma alternativa válida, são as atitudes que contam em um mundo tomado pelo caos e pela incerteza. Muitos perdem qualquer resquício de humanidade, se tornam amargos, egoístas. Outros se agarram àqueles que amam, família e amigos, vendo nessa relação de cumplicidade uma maneira de manterem-se “vivos”, com a esperança, embora remota, de que tudo volte a ser como antes. Quem está certo ou errado? A questão é mais complicada do que parece.
Interessante ser esta uma das principais discussões em uma série de terror. O tema da sobrevivência em meio a um apocalipse zumbi poderia facilmente resultar em uma trama superficial, sem conteúdo, com base apenas em sustos e elementos clássicos do horror, em nada diferenciando da maioria das produções que chega aos cinemas durante o ano. Felizmente, não é o caso de The Walking Dead, que faz por merecer todo o barulho causado a cada novo episódio, com profundas incursões pelo lado mais primitivo do ser humano, dominado pelo instinto. A série deu um tempo no sétimo episódio da 2ª temporada e só volta em fevereiro.
Todos os personagens ali são tridimensionais, possuem uma carga de complexidade rara no gênero. Seus dramas e conflitos saltam da tela e, certamente, encontram identificação no espectador. Maniqueísmo é algo que não existe. Todos têm seus motivos para ter determinado comportamento, por mais que não estejamos de acordo. E até essa nossa visão fica alterada, já que se trata de uma nova realidade. Será que julgar algo com uma visão "antiga" é o correto? Os conceitos de "bom" e "mau" permanecem inalterados? É uma discussão que pode se prolongar bastante.
Shane, por exemplo, à primeira observação, é repulsivo. Um cara que deveria ser proibido de manter contato social, já que deixou a maldade, inerente a todo ser humano, reger a sua existência como forma de preservação. Mas as experiências aterrorizantes pelas quais passou poderiam ser consideradas atenuantes, não? Além disso, quem pode dizer, sem um pingo de dúvida, que não prejudicaria ou até mesmo mataria um desconhecido para salvar a vida de uma pessoa querida? Ele escolheu um lado, uma forma prática de sobreviver. Para ele, funciona.
E o Rick? Um "mocinho" que toda vez que tenta fazer a coisa certa, acaba causando danos a alguém. É mais fácil fazer de Shane um vilão, mas se os mortos caminharão sobre a Terra quando o inferno estiver cheio, como dizem, Rick, com suas boas intenções, é um dos principais causadores desse extermínio. É difícil julgar. Agir como Shane pode até significar tornar-se um monstro, um zumbi, por assim dizer, sem sentimentos e ligações com o passado. Mas pode ser a única saída em tempos de crise. Quem sabe o apocalipse zumbi não é exatamente isso: o auge da degradação humana, quando o homem terá que recomeçar do zero o seu processo evolutivo e se aperfeiçoar como raça para não cometer os mesmos erros.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Attack the block

Uma história bem contada não precisa de efeitos especiais grandiosos para prender a atenção do público. E não importa se o filme em questão traz como tema um ataque alienígena, que, por conceito, carece de um mínimo de investimento que permita ao espectador se envolver com a trama, torná-la crível. Em “Guerra dos Mundos”, por exemplo, Spielberg torrou cerca de 200 milhões de dólares e o resultado foi apenas regular. O original, da década de 50, com parcos recursos, quase um filme B, obteve muito mais êxito nesse aspecto.
Mas como sucesso de bilheteria é o fator levado em consideração pelos estúdios, não é exatamente uma surpresa que “Attack the block”, um filme inglês de baixo orçamento (13 milhões de dólares), nunca tenha chegado aos cinemas brasileiros. Ele não tem a “grife” hollywoodiana, embora seja produzido por Edgar Wright, responsável pelos excelentes “Todo mundo quase morto”, “Chumbo grosso” e “Scott Pilgrim contra o mundo”. Fora que não possui um Tom Cruise ou similar no elenco. O mais conhecido ali é Nick Frost, habitual colaborador de Wright. A direção é do desconhecido Joe Cornish.
O filme começa com uma inversão de valores. Os mocinhos aqui não são pessoas virtuosas, com quem podemos nos identificar facilmente. São os chamados “trombadinhas”, que fizeram de um bloco de condomínio o seu território, roubando com violência os desavisados que passam por ali. Ao atacarem uma moradora, são surpreendidos por um asteroide, que acerta em cheio um carro próximo. O líder da gangue, Moses, aproveita para vasculhar o automóvel destruído atrás de alguma coisa de valor, mas se depara com uma criatura que o fere e foge.
Inconformado, Moses parte à caça do que ele pensa ser uma espécie de porco-espinho e o mata. Ele leva o bicho para um traficante amigo seu analisar, já que o cara é fanático por Animal Planet e, quem sabe assim, faturarem uma grana. Mas, da janela do apartamento, Moses e sua gangue observam inúmeros asteroides caindo ali próximos. Não há dúvidas, é uma invasão.
O filme possui um forte caráter social, que retrata a juventude marginalizada londrina e a relação desta com a polícia local. Mas é uma carga de dramaticidade que não tira o foco da diversão, ao contrário, a reforça, utilizando-a como muleta para movimentar a narrativa, fazê-la andar. Uma disputa de poder no condomínio, que ocorre paralelamente, também serve a este propósito.
Mas esse contexto seria de pouca utilidade se as criaturas de “Attack the block” não causassem a tensão sugerida a todo instante. E como o orçamento não permitia grandes esforços da equipe de efeitos especiais, a opção foi por uma fotografia (por si só acinzentada para transmitir a melancolia que é viver naquele condomínio), mais escura quando os aliens surgem em cena, realçando sua capacidade destruidora com um intenso brilho azul das suas bocas. É simplesmente amedrontador.
A inventividade do roteiro prossegue até o final, quando descobrimos o porquê da insistente perseguição aos jovens (ao lado da vítima do assalto no início - em mais uma sacada genial - que terá que confiar sua vida aos seus inimigos), já que, a priori, as criaturas teriam toda a Inglaterra para espalhar o terror.
Enfim, é uma pena que “Attack the block” não chegue aos cinemas. São raros, hoje, os filmes de gênero que não insultem a inteligência do espectador. Parece que há uma regra implícita: para ser mainstream, é necessário vir mastigado. Ainda bem que existem as exceções e, claro, a internet para baixar essas preciosidades.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vampiros que brilham e outras patetices

Estreia em número recorde de salas de cinema no Brasil o filme Amanhecer, o quarto da “saga” Crepúsculo. Algo inversamente proporcional à qualidade dessas adaptações. Mas o sucesso de público não chega a ser incompreensível. Os fãs da série são os mais xiitas que surgiram na última década. Não admitem críticas, defendem o produto de sua adoração com unhas e dentes. Mas ainda não encontrei um que não seja uma adolescente suspirando pelos cantos por causa do “vampiro” e do “lobisomem”. Menos mal. Elas vão crescer e ver como esse comportamento é ridículo.
Até porque, elas, com certeza, não conhecem os vampiros e lobisomens de verdade. Os de Crepúsculo são uma afronta ao gênero do terror. Vampiros que brilham no sol, que passam a eternidade em escolas... Não dá pra engolir. Uma coisa é criar um mundo de fantasia, como Harry Potter, por exemplo, que não raro é comparado (injustamente, já que está a anos-luz em qualidade da trama de Stephanie Meyer) com Crepúsculo. Outra é se apropriar de elementos consagrados – artifício teoricamente mais fácil – e criar algo tosco, ruim, desrespeitando toda a mitologia que envolve os seres sobrenaturais.
E antes que me acusem de detonar Crepúsculo por este ser “um romance e não terror”, argumento que já escutei diversas vezes, assistam “Drácula”, do Coppola. Aquilo, sim, é um romance. E mesmo fora do horror, muitas comédias, por exemplo, tratam esses ícones com mais propriedade do que Crepúsculo. E nem venham também com a história de que a protagonista é um exemplo de superação feminina, que ela conduz a narrativa, ao contrário dos clássicos. A vocês, digo: a Bella (sim, sei o nome) é uma abestalhada, que espera tudo acontecer. Vai contra todos os ideais de feminismo.
Talvez até por isso haja tanta identificação. Ela, apesar de ser uma mulher feita, age como uma adolescente boba e imatura. Acho que se rolasse um papo entre a Bella e suas fãs do mundo real, o assunto não passaria de Hanna Montana e similares. Quem sabe até resolvam juntas um teste de revistas tipo Capricho ou Querida. Daqui a alguns anos, quem sabe, poderão falar sobre cinema. Mas falta muito pra isso.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

IT - A obra-prima do medo

Uma noite fria de julho. Todos sentados na frente da casa, só olhando o movimento, ou na praia ainda, aproveitando aqueles últimos dias das férias em Mosqueiro. Todos, menos eu e meu primo, Cesar. Ele inventou de ver um filme e eu, embora fosse tarde para uma criança estar fora da cama, fiquei por ali, já que ninguém tinha reparado mesmo. Melhor pra mim, pensei. Grande erro. O tempo passava e, cada vez mais, me afundava no sofá de tanto pavor. O ano era 1993 e até hoje eu guardo um trauma daquele filme, IT – A obra-prima do medo.
Só pelo cenário que tracei acima já dava pra ver que nada de bom sairia dali. Afinal, ele é praticamente um clichê de filmes de terror. Mas, aos dez anos de idade, ainda não tinha pelo gênero o amor que conservo hoje. O Cesar só percebeu o meu estado quando deu uma parada no VHS pra ir beber água e viu que eu fui atrás. Ele começou a rir da minha cara, obviamente, e me mandou parar de assistir. Nem tentei me fazer de gente grande. Corri da sala.
A história do palhaço assassino me perseguiu durante alguns meses. Tive pesadelos, demorava pra dormir, entre outros detalhes mais embaraçosos que, claro, não vou contar... Minha mãe só faltou bater no meu primo por ter me deixado assistir ao filme. Enfim. Passado algum tempo, já maior e vibrando a cada novo filme de terror assistido, de todas as vertentes possíveis, li numa daquelas revistas de programação da TV por assinatura que ia passar o tal do IT. Resolvi encarar meu trauma.
Com um olhar mais crítico, tive a noção de que o filme – que agora já sabia se tratar de uma adaptação para a televisão, em formato de minissérie, da obra de Stephen King – era bem ruinzinho. Bobo, até. Mas sabe aquela sensação? Um frio que percorre a espinha? Pois é. Tudo voltou. Terminei de assistir e a imagem do maldito palhaço ficou na minha cabeça o tempo todo, com aquela voz docemente assustadora com que atraía as crianças para a morte... Não foi com a mesma intensidade da primeira vez, mas precisei de uma sessão extra de comédias para espantar o medo.
Lembrei de tudo isso porque fui procurar uma foto de palhaço no Google para ilustrar uma matéria e, logo de cara, me apareceu a figura do Pennywise, que era como o assassino se apresentava. Um palavrão saiu da minha boca na mesma hora. Não tenho medo de outros filmes com palhaços, encaro numa boa. Mas esse... Eu tenho IT em casa, comprei um dia. Sabem quantas vezes eu assisti? Nenhuma. Quando falo do meu medo, as pessoas ficam loucas pra assistir, pois conhecem meu gosto e estranham essa história. Fiquei até tentado a revê-lo. Quem sabe...

domingo, 9 de outubro de 2011

Death Valley

Séries que mostram a rotina do trabalho policial não faltam na televisão. Cops, Lei e Ordem e CSI são alguns dos principais representantes do gênero, que é garantia de sucesso nos EUA há décadas. Apesar de reconhecer a extrema capacidade de reciclagem dos temas abordados nesses programas, admito não ser fã dos mesmos, justamente por conta desse ciclo interminável, da falta de um fio condutor na narrativa. É simplesmente episódico, do tipo assista um hoje e outro daqui a vários meses que você não vai boiar na história.
Uma série que inovou nesse aspecto nos últimos anos e ganhou meu respeito foi Dexter, que investiu nos personagens em vez de se limitar a resolver casos, tornando-se bem mais complexa que outros produtos similares. Afinal, o grau de dramaticidade aumenta a partir do nosso envolvimento, nossa preocupação com o destino das pessoas ali presentes. E foi por esse caminho que a MTV resolveu seguir quando decidiu realizar sua própria série com esse tema, Death Valley, cuja primeira temporada está em exibição.
A diferença é que a MTV optou também por dificultar as coisas para seus “heróis”. Em vez de bandidos normais, os policiais têm que lidar com hordas sanguinárias de zumbis, vampiros e lobisomens. A UTF (Undead Task Force) é a unidade responsável por conter, “educar” e, se for o caso (90% das vezes), eliminar as criaturas que invadiram a região de San Fernando Valley um ano antes. As histórias dos integrantes vão sendo reveladas aos poucos, assim como a interação entre os parceiros de combate aos mortos-vivos, numa dinâmica bem interessante, já que todos os seus passos são acompanhados pelas câmeras de uma rede de televisão, em um esquema de “falso documentário”.
Embora o sangue jorre em grandes proporções, em inúmeras cenas que nos fazem pular do sofá ou roer as unhas de tensão, Death Valley é basicamente uma comédia. De humor negro, claro, mas, ainda assim, uma comédia. Não tem como levá-la a sério. Os episódios duram, em média, vinte minutos e a diversão é garantida, até porque existem “n” possibilidades que podem ser trabalhadas nos roteiros, pois trata-se de fantasia, compromisso zero com a realidade obrigatória das séries policiais tradicionais.
A destacar também o belo trabalho de maquiagem dos monstros. São criações inspiradas. E tinham que ser mesmo, já que não houve, digamos assim, um apocalipse. O mundo como conhecemos não acabou e o resultado é que a presença desses seres não está envolta em trevas, eles não surgem em rápidas aparições, que mal nos deixam observar suas formas e características. Eles dividem o espaço com os humanos e, assim, têm que parecer críveis aos olhos do espectador.
Enfim, com essa mistura de humor inteligente e horror gore embalado em um formato policialesco consagrado na TV norte-americana, não tenho como não considerar Death Valley um sopro de criatividade no universo dos mortos-vivos, explorado à exaustão ano após ano, mas com poucas obras que realmente se destaquem. Veremos se a qualidade se mantém e a série garante uma nova temporada. Até agora, merece.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

The Walking Dead - Torn Apart

A segunda temporada do programa está prestes a estrear e uma websérie foi produzida para dar um gostinho aos fãs. São seis episódios que narram a história de Hanna, a zumbi cortada ao meio que estampou os cartazes da primeira temporada e apareceu no piloto da série. Confira abaixo, na íntegra:











domingo, 2 de outubro de 2011

A Árvore da Vida



Nunca li nenhum livro ou manual que dissesse que Cinema é história, com começo, meio e fim. Cinema é, acima de tudo, imagem. Terrence Malick entende isso. Aliás, o cineasta não só compreende, como vai muito além. Árvore da Vida é um libelo sobre a Vida e a Morte. Sobre Deus e Natureza. A razão versus a fé. A criação como Biologia e o amor como manifestação divina. Pronto. Nas mãos dos medíocres, seria um prato cheio para melodramas. Mas não para Malick. Não, ele não está interessado em agradar. Mas é subverter, angustiar. E criou um dos filmes mais belos que já vi na vida.

Não há uma história linear. Basicamente, é a de uma família média americana, nas décadas de 50 e 60 que chora a perda de um dos três filhos. A narrativa se desloca no tempo, indo e vindo, mostrando a educação rígida do pai e a doçura no trato com a mãe. Partindo, para a redenção do filho mais velho. Tudo entrecortado e envolvido por belas imagens. Desde a criação do universo. CGI bem usado, diga-se. A beleza do mundo e o conflito com Deus. Porque teria nos abandonado, se fez tudo isso tão belo?

Semioticamente, os planos propostos são elegantes. Planos fechados, baixos, ressaltando o olhar infantil. O despertar do mundo das crianças, da sexualidade, das dúvidas, dos enfrentamentos, diante de um mundo onde Deus teria abandonado (mas como abandonou se as plantas ainda crescem?).

Concordo que não é um filme fácil. Entendo quem saiu das salas de cinema no meio da sessão. Afinal, ficamos acostumados com o manual hollywoodiano de fazer cinema. E o Cinema atual está em crise de idéias. Mas é justamente nesses períodos que surgem as obras primas. Disse que Ilha do Medo era o melhor de 2010. Árvore da Vida é o melhor de 2011. O Primeiro, de Martin Scorsese, que junto com Malick, veio de outra geração em crise: Da década de 1970. É desses caras que os novos cineastas têm que tirar as boas lições.




Nota: 10

Trailer:

http://youtu.be/PlxZOOEHK4o

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quando é dia de futebol

Um olhar encantado. Atenção aos mínimos detalhes. Tudo à minha volta parecia uma grande festa – e era mesmo. Movimentação, cores, gritos enlouquecidos, a fumaça que saía das churrasqueiras improvisadas, a chuva de cerveja e outros líquidos menos nobres (faz parte) e, o melhor de tudo, as bandeiras tremulando. Na cabeça infantil pairavam algumas tolas perguntas, típicas de quem só havia visto tudo aquilo pela televisão. Mas elas perderam a importância ao soar do apito daquele homem de preto. Agora era verdade. Eu, finalmente, estava ali, acompanhando, ao vivo, minha primeira partida de futebol.
Aos sete anos de idade, acho que até demorei a entrar num estádio. Hoje, vejo crianças de colo, bebês que nem entendem o porquê daqueles homens estarem correndo atrás de uma bola no gramado, devidamente uniformizados, com seu time já escolhido pelos pais. Sim, pois para um apaixonado por futebol, é uma afronta o filho não seguir a sua preferência clubística. Faz bem, portanto, o Clayton, meu chefe aqui no Diário, que mal soube que será pai de um menino, de imediato traçou planos para o futuro esportivo do herdeiro.
Mas qual a graça, o que de tão apaixonante tem o futebol? Perdi a conta de quantas vezes me perguntaram isso. Digo sempre o seguinte: se a pessoa não vê, de cara, a beleza, a plasticidade de um drible bem dado, seja ele por baixo das pernas do adversário, um lençol, um elástico, uma meia-lua; ou a dramaticidade contida no arco perfeito de uma bola chutada rumo ao ângulo do goleiro, que se estica todo e, por apenas um milímetro, não consegue tocá-la, então, realmente, não há como entender. Futebol é paixão à primeira vista.
Por isso, concordo com Carlos Drummond de Andrade, que disse que uma partida de futebol é mais disputada por torcedores do que por atletas em campo. O costume de não apenas ver, mas ouvir o jogo torna essa verdade ainda mais incontestável. A emoção transmitida por locutores de rádio, que fazem com que uma bola que passou a metros de distância do gol, tenha na imaginação do torcedor, magicamente, tirado tinta da trave, é motivo até de preocupação para pessoas que têm problemas cardíacos.
Imaginação. É uma arma poderosa no futebol. É fato que ser jogador profissional é a ambição de todo garoto que ama o esporte. E esse é um sonho que, se não realizado, nunca morre. Falta de talento não é problema. As peladas de fim de semana sempre vêm ao socorro. Não tenha dúvidas que aquele cara desengonçado, com aquela barriga de chope, está ali no campo se achando um Garrincha, um Zico, um Romário, feliz como uma criança. Por isso, esposas e namoradas, não fiquem de cara feia, nem cortem a onda dos seus companheiros. Não se brinca com sonhos infantis.
Imaginação. Só assim para passar por cima da crise eterna de Remo, Paysandu e Tuna, e, neste fim de semana, quando começar o Campeonato Paraense, torcer por todos aqueles pernas de pau, transformando-os em ídolos, do mesmo peso de Neymar, Ganso e Ronaldinho Gaúcho. Tudo pela esperança de que seus times, enfim, consigam corresponder a tanto amor, a tanta devoção. Sem dúvida, os verdadeiros heróis, os verdadeiros jogadores, não estão em campo. Estão nas arquibancadas. Certo, Drummond?

Texto publicado no Por Aí de 21 de janeiro de 2011. Era em virtude do início do Parazão, mas cai bem em dia de jogo do Brasil em Belém.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O verdadeiro cult

Durante a última semana, ouvi muitas reclamações sobre a ausência do novo filme de Lars Von Trier, Melancolia, na lista de estreias do circuito comercial de Belém. Sinceramente, a mim não faz a menor falta. E aqui tomo emprestada uma frase de Renato Russo para me explicar: Em minha opinião, o dinamarquês se enquadra naquela categoria dos que falam demais, pois não têm nada a dizer (Como toda regra tem exceção, O Anticristo é passável).
Radical? Talvez sim. Não costumo ser. Mas os filmes do Von Trier não me provocam reflexão, apenas sono (seguido de raiva por ter perdido meu tempo). Rebuscado ao extremo, ele exalta a forma para disfarçar um conteúdo desinteressante. E não me entendam mal, não se trata aqui de uma defesa do cinema-pipoca ou do entretenimento puro. Existem inúmeros cineastas – atuais e consagrados – que conseguem unir essas duas vertentes, arte e diversão, em suas obras e têm meu respeito.
Michael Mann, Chris Nolan, Copolla, Allen, Samuel Fuller, Edgar Wright, Shyamalan (que ainda tem crédito, mesmo depois das recentes bobagens que dirigiu) e Lucio Fulci são alguns deles. E aqui vai uma dica pra quem está se lamentando por não poder (ainda) assistir na telona o novo Trier. Um “velho” Fulci está em cartaz hoje à noite, às 21h, na Sessão Maldita do Cine Líbero Luxardo, com entrada franca. Infelizmente, vou estar em pleno fechamento da edição do DIÁRIO e perderei a exibição. Mas quem estiver sem compromisso e gostar de cinema, tem a obrigação de estar lá.
O filme em questão é Um lagarto com pele de mulher. Ainda não vi, não posso comentar especificamente sobre ele. Mas por tudo que já vi de Lucio Fulci, posso afirmar sem medo que o seu pior filme com certeza vale mais a pena do que o melhor de Von Trier. Craque da mise-en-scène, Fulci extrai a tensão de seus movimentos de câmera. Joga com o terror psicológico, ao mesmo tempo em que não hesita em partir para o gore, com litros de sangue jorrando da tela.
Curiosamente, um de seus temas preferidos é o mesmo que Trier vez ou outra invoca, como a religião, a violência e demais sentimentos originários daí. Controversos, ambos são. Gênio, pra mim, só Fulci. Ainda mais se levarmos em consideração os parcos recursos que o italiano sempre teve à sua disposição em oposição à babação de ovo em cima de Trier, que consegue financiamentos em vários países (seu banimento de Cannes por ter feito uma piada nazista só vai ajudá-lo nisso. Ele está na moda).
E se você virem o filme de Fulci e afirmarem que é trash, eu digo que a primeira impressão é essa mesmo. Eu tive e me diverti muito, do mesmo jeito. Claro que algumas pessoas não curtem isso. Mas vale a pena. Se os risos involuntários (eles existem) forem deixados de lado, você terá uma aula de cinema. Aos poucos, saltam aos olhos detalhes da composição, do roteiro, entre outros aspectos, que dão vontade de gritar, à la Cidade de Deus: “Trier é o c... Cult mesmo é o Fulci, p...”.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Piranha 3D

Gosta de filme trash? Não? Então passe longe de "Piranha 3D". Se curtir, como eu, você vai rir. E muito. Aliás, esse aviso é meio dispensável, afinal, de um filme com esse nome todo mundo já sabe mais ou menos o que esperar. Ainda mais com o sugestivo subtítulo: sexo, suor e sangue. É exatamente isso que teremos na tela durante os noventa minutos de projeção. Não tem propaganda enganosa.
E justamente por conta do primeiro item, uma dica: vá só com os amigos. "Piranha" é um filme para garotos. Nada de levar a namorada. A não ser que vocÊ queira ela lhe olhando torto ou tapando seus olhos nas cenas mais picantes. E eu lhe garanto: você não vai querer perder o balé aquático encenado por duas garotas. Fora os muitos outros fetiches masculinos presentes.
Quanto ao terror, ele é inexistente. Pessoas morrem, sim. O sangue jorra, também. Mas não há sustos ou clima de tensão. A não ser nas horas em que o 3D age e joga os monstrengos pré-históricos na nossa cara. É um legítimo "terrir", com a licença do cineasta tupiniquim Ivan Cardoso, que cunhou o termo. Com apenas uma óbvia substituição na parte mais explorada do corpo feminino, já que o filme é norte-americano, não brasileiro.
Para a nova geração, é importante lembrar que "Piranha" é uma franquia que, vez por outra, volta às telas. Tivemos o filme de Joe Dante, de 1978. A continuação, de 1981, que teve o privilégio de ser o longa de estreia de James Cameron, e contou com o surreal subtítulo: "Assassinas Voadoras". Além de várias obras de menor expressão (ainda).
Entre outros atrativos, essa nova versão traz participação especial de atores consagrados, como Richard Dreyfuss (do tipo piscou, perdeu) e Christopher Loyd - fazendo seu tipo amalucado de sempre. Além, é claro, da tecnologia 3D, que, embora tratada de forma simples no simples, torna algumas cenas bem interessantes. Por sinal, "Piranha" deve encerrar essa fase de conversões para 3D (exceto os retardatários que ainda não estrearam por aqui, mas já estão caducos lá fora).
Para terminar, volto a dizer: o filme é trash. Muito. Se não se divertir com isso, troque de sala. Caso contrário, boas risadas.

Texto publicado no Por Aí em outubro de 2010

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Papão Smurf

“Há muitos e muitos anos, no coração da floresta, havia uma vila escondida, onde moravam criaturas azuis. Chamavam-se a si mesmo de Smurfs. Eram muito bons. Mas existia também o Gargamel, o feiticeiro perverso. Ele era muito mau. A floresta ainda existe e, se vocês prestarem atenção, ouvirão os gritos do Gargamel. Mas se vocês forem bonzinhos, conseguirão dar uma olhadinha nos Smurfs”. Texto de abertura de desenho animado dos anos 80 – e hoje filme de sucesso – ou um recado para a torcida do Paysandu? Se não conseguiu ler na entrelinhas, o Bola decifra para você, leitor.
O ano era 2006. O Papão era expulso da sua “vila encantada” e disputou a Série B do Campeonato Brasileiro pela última vez. De lá para cá, sofrimento, agonia e decepção. O time não conseguiu achar o caminho de volta, que o recolocaria em posição de destaque no cenário nacional. Pela tortuosa floresta da Terceira Divisão, Salgueiro, Icasa e outros, fizeram o papel de Gargamel, numa perseguição implacável aos seres alvicelestes e muitos jogadores viraram sopa de Smurfs. O eco das derrotas ainda reverbera pelos lados da Curuzu...
Agora, mais uma tentativa. Roberto Fernandes foi contratado ainda no final do Campeonato Paraense, com a missão de formar um grupo capaz de driblar as adversidades dessa trilha sombria. Como um sábio Papai Smurf, ele tem paciência e jogo de cintura para trabalhar e entrosar a equipe, mesmo com as fortes cobranças da torcida, que deseja ver resultados imediatos para não correr risco de perder, de novo, o rastro que leva à “vila” da Série B.
E tudo parece marchar para um final feliz, bem ao estilo dos desenhos oitentistas, já que o elenco formado é da melhor qualidade, com, por exemplo, a presença do Smurf Gênio, Thiago Potiguar, ainda fora de forma, mas peça importante no time e que conta com a confiança da Fiel. Mas, caso ele não esteja apto, temos ainda o Smurf Robusto, Robinho, que entra nos jogos com uma disposição impressionante, não há bola perdida. E se não der pelas vias normais, vai na sorte mesmo, com o Smurf Desastrado, Zé Augusto, que, aos trancos e barrancos, na raça, sempre consegue ser decisivo.
Como ainda está tudo no início, ainda vamos descobrir quais são os outros smurfs do grupo, o Habilidoso, o Fominha, o Vaidoso... A torcida bicolor só espera que ninguém faça o papel de Smurfete e jogue de salto alto ou então que o Ranzinza Luiz Omar não apronte das suas mais uma vez e atrapalhe essa volta à vila escondida que é a Série B. Tão escondida que há cinco anos o Paysandu pena para achar o caminho de volta.

Texto do caderno Bola, do Diário do Pará, publicado em 09 de agosto de 2011.

Perdidos?

Inferno, purgatório e paraíso. Três palavras que simbolizam uma jornada épica, espiritual, que levam a um embate entre a fé e a razão. Alguns escolhem se aventurar por esse caminho longo e tortuoso; outros são levados involuntariamente a ele. Mas, ao final, motivos, sofrimentos, não importam. O fundamental é encontrar a redenção. Algumas respostas sempre vão faltar, mas a vida é isso: aceite o mistério. É assim, como se “A Divina Comédia”, de Dante, ecoasse em nossas cabeças, que “Lost”, uma das séries de maior sucesso da história da televisão mundial, chega ao fim, com a exibição do último episódio hoje no Brasil.
O que é a ilha? Qual a essência do monstro da fumaça? Por que aqueles personagens foram escolhidos para estar ali? São muitas perguntas que escondem o fato de que estar “perdido”, na verdade, pode não ser tão ruim. Afinal, todos nós, em dado momento, ficamos assim, em busca de um rumo. Até mesmo os clubes de futebol. Quem sabe se num universo paralelo, o Clube do Remo não poderia assumir o papel de protagonista dessa história?
Como num clarão eletromagnético que vez por outra cai sobre a ilha (agora travestida de Belém), voltamos ao ano de 2005. Vemos a torcida azulina ter seu último instante de glória, uma esperança para dias melhores. O título da Série C poderia ser um novo e revigorante começo. Mas ali, começaram as escolhas erradas que levariam o clube ao fundo do poço. Dá vontade de avisar, mas não podemos mudar o passado. Os paradoxos temporais seriam catastróficos. Resultado: passado algum tempo, o time ficou sem competição nacional a disputar, perambulando como um fantasma pelo interior do Estado. E o que é pior, um mero coadjuvante no cenário local.
Um homem, talvez, ainda possa mudar essa história. Ele foi chamado de salvador em 2006 por ter conseguido evitar temporariamente um desastre. Ali, identificou os problemas que afligiam o clube, mas não lhe foi permitido continuar seu trabalho. Resultado, o Remo retomou o caminho ladeira abaixo. Mas, assim como a ilha não permite que os personagens cruciais fiquem fora, se desviem de seu foco, Giba voltou ao clube. É o que ele deve fazer: reerguer o clube. Esse é o seu trabalho. O Remo ainda reserva uma tarefa a ele.
Por que da primeira vez não deu certo? Assim como Jack, em “Lost”, Giba precisava fazer sua escolha. Em 2006, ele havia sido contratado do nada, foi colocado no meio daquele pandemônio, uma bagunça generalizada que ele tentou consertar. Saiu e, anos depois, voltou. Agora diz que quer ficar, apesar do recente insucesso. Mostrou calma, serenidade, entende a situação. Boa sorte a ele, que terá muitos percalços nessa jornada, afinal, os monstros da fumaça estão por todos os lugares no Baenão, frutos do egoísmo e da ganância, tentando apagar a luz que brilha no coração de cada azulino.
Se ele vai conseguir é outra história. Talvez até passe o bastão para um novo líder, um novo protetor. E é claro que isso vai acontecer. Se não agora, mais adiante. É o ciclo da vida, ninguém pode impedir. Mas, até lá, o importante é que ele cumpra sua missão e deixe o caminho pavimentado para que o clube saia fortalecido, consiga deixar o limbo e encontrar o paraíso. E se você, leitor, acha que esse texto não tem lógica, você tem razão. É uma simples brincadeira. Mas é também, pelo menos para o torcedor do Remo, uma questão de fé.

Meu texto publicado no caderno Bola, do Diário do Pará, em 25 de maio de 2010, comparando Lost e o Remo. O técnico caiu, não cumpriu sua missão e o clube continua no limbo.

Prazeres culpados

Todo mundo tem, não adianta negar. Podemos até tentar encontrar argumentos pra justificar, mas não vamos conseguir nem para nós mesmos. O jeito, então, é relaxar e curtir. Estou falando dos prazeres culpados do cinema. Daqueles filmes que são ruins de doer, mas que nos deixam vidrados na tela. Perdi as contas de quantas vezes escutei uma pessoa falar: “credo, esse filme de novo?”. Mas está lá, ligada. Sempre.
Acontece. Às vezes, é um detalhe que faz a diferença. O filme pode ser péssimo, ter um roteiro esburacado, atuações canastras (claro, aqui não entram os trashs, esses são assim por natureza), mas, se tem aquela música que você adora ou aquela piadinha infame que faz você gargalhar enquanto todo mundo na sala continua sério, com cara de dor de barriga, pronto. A magia do cinema está completa.
Tenho vários prazeres culpados. Admito isso sem vergonha alguma (ninguém deve ter). Vergonha seria se me limitasse a eles. Como não corro esse risco, só tenho a aproveitar. Mas uma dica: não queira impor aos outros a sua predileção. É um tiro no pé. Se começarem a falar mal do seu filme, você não terá nem como rebater, a não ser com a memória afetiva, que, nesses casos, é o mesmo que nada. Então, para evitar brigas, carregue sua culpa com você, não divida.
Levar na esportiva é o mais importante. E para demonstrar isso vou ter que me expor e revelar pelo menos um dos meus pecados cinematográficos. Não sem antes lembrá-los de que, nessa seara, todos têm telhado de vidro, portanto, nada de julgamentos. O filme em questão é reprisado uma quantidade absurda de vezes na TV por assinatura. E são raras as que eu não estaciono ali. Paro de zapear na hora: Mamma Mia!, com Meryl Streep.
Conta a história de uma garota que vai casar, mas antes quer conhecer seu pai. Acha então o diário da sua mãe e convida três possíveis “pais” para visitá-la, sendo que a narrativa é totalmente pontuada pelas músicas do Abba. Não vou explicar porque gosto do filme (batalha inglória). Simplesmente gosto. Aceitem. Mas o ponto onde quero chegar é o seguinte: pessoas cuja opinião eu respeito detonaram o musical. E o Pablo Villaça (não é parente), do Cinema em Cena, fez isso com uma criatividade espantosa, no que eu considero uma de suas melhores críticas (leia aqui: http://bit.ly/vlRXe).
Eu concordo com tudo que o Pablo escreveu, mas vou continuar vendo e me deliciando com o filme. Paciência. Não importa se “A Julie Walters aqui é uma tortura / E Colin Firth, na caricatura... / O Pierce Brosnan... / Quando canta parece que rosna!”. Pelo menos ele livrou a cara da Meryl Streep, até porque é muito difícil criticar uma atuação da atriz. Enfim, minha lista é interminável, mas não vou dividi-la com vocês. Seria um prazer pra mim, mas uma tortura para muitos. Só espero que sempre tenham essa consideração comigo também.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os limites do grotesco

A Serbian Film, de Srđan Spasojević, que teve sua cópia apreendida no Brasil, não merece tanto falatório. É uma produção feita para chocar, dentro dos padrões do cinema de horror extremista, que vai além do estilo torture porn. Porém, é caricata e com uma história frágil, que não se sustenta sem a violência explícita. Censurá-la só faz aumentar o interesse do público, que não depende mais da exibição nas salas de cinema para assistir a filmes do tipo. A internet está aí para isso. O que fica é a privação dos nossos direitos de ver e julgar a obra. Censura pura e abjeta.
Goste-se ou não, A Serbian Film se enquadra em uma temática cinematográfica. O japonês Takashi Miike, por ser o mais conhecido, talvez seja o melhor modelo de comparação. Ele também sofreu com proibições à sua obra em alguns países, mas é reconhecido e venerado pelo público e pela crítica. Não é para menos. Sua obra tem unidade, subverte a linguagem do cinema, lida com dramas humanos e apenas exagera na composição dos quadros retratados, carrega nas tintas, beirando, mas não chegando ao non sense. É uma linha tênue e que foi ultrapassada por Spasojević.
A Serbian Film pretende mostrar a inversão (ou perda total) dos valores no país do leste europeu após a guerra civil. Isso é mostrado pela ótica de um ator de filmes pornôs aposentado, Milos. Ele é contratado para voltar à ativa mediante um pagamento exorbitante, com uma ressalva: não pode saber antecipadamente como serão as filmagens. Assim, ele descobre apenas na hora que elas envolvem espancamento, necrofilia e pedofilia. A gota d’água foi um vídeo mostrado pelo diretor de um novo gênero, o “newborn porn”, pornô com recém-nascidos.
Milos tem uma reação esperada: deixa a sala ultrajado. E é aí que o filme tem seu único momento de força, mas, paradoxalmente, perde público. O personagem é dopado com afrodisíaco para gado e estimulado a cometer as maiores atrocidades. Mas isso é mostrado através de fitas de vídeo, descobertas mais tarde por Milos, pois este acordou em sua cama, ensanguentado, sem lembrar do que aconteceu nos últimos três dias. Esse recurso, do filme dentro do filme, nos faz compartilhar com Milos os seus atos e nos coloca na posição de voyeur, cúmplices. Causa estranheza e desconforto.
Ponto para o cinema por despertar essa reação. O objetivo era esse mesmo. O problema é um só: muita violência – mesmo estilizada – para pouca história. Soa forçado. Tudo bem que o naturalismo não era o efeito pretendido, mas era de se esperar o mínimo de coerência na linha narrativa. Onde mora todo aquele drama visto na tela? Passamos o filme todo sem saber, com uma sensação de muito barulho por nada. No clímax, a fala “Eis uma grande e feliz família sérvia”, dita ironicamente, escancara o tema do filme e o que fica em evidência é a fragilidade do roteiro, que confessou a sua inabilidade. Duvidou da sua própria capacidade e deu tudo mastigado para o espectador.
Há ainda quem diga que é tudo uma grande piada, que a idéia era mesmo ser engraçado. Humor negro, diga-se. Que seja, mas, para mim, não funcionou. Enfim, A Serbian Film é, como cinema, abaixo da média, mas deve ganhar status de cult por conta dessa proibição. Uma pena, não merece tanto. De todo modo, o filme pode e deve ser discutido como arte. Censurado, nunca. Não vi incitação à pedofilia, ao contrário, ela é rejeitada pelo personagem principal. Quem o censurou não deve ter visto ou não entendeu o filme. O que torna o ato ainda mais repugnante do que as próprias cenas do filme.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mestres

Vincent Price e Christopher Lee. Dois mestres do horror. Só a expressão séria de ambos já provoca calafrios. Um tem uma gargalhada sinistra. O outro, um olhar assassino. Eles se completam. Quis o destino que fizessem aniversário na mesma data, dia 27 de maio, há exatamente uma semana. Provavelmente, era uma noite de lua cheia, com o uivo de lobos como trilha de fundo. Este seria o cenário perfeito, resumiria bem o que viriam a ser suas existências. E se não foi assim, quem liga? O que seria do mundo sem um pouco de ficção?
Price completaria 100 anos de idade se estivesse vivo. Ele passeou por vários gêneros, mas foi no cinema fantástico que seu trabalho ganhou mais destaque. Uma galeria de personagens excêntricos, atormentados, insanos... Ele tinha o dom de assustar. Nas telas, seus modos de lorde escondiam uma natureza maquiavélica e o perigo sempre rondava quem dele se aproximava. Quando a sua expressão sombria surgia, dissipando a névoa, o cheiro de morte podia ser sentido.
Exceção à regra, Price recebeu diversas homenagens ainda em vida. Além de prêmios, todos voltados para o terror e a fantasia, obras no cinema. Só Tim Burton o presenteou – e aos fãs também, claro – com duas produções: um curta-metragem divertidíssimo, “Vincent”, sobre um menino que gostaria de ser Vincent Price; e uma deliciosa participação em “Edward – Mãos de Tesoura”, como o “pai” do protagonista, um cientista louco (seu último trabalho).
Apesar de Price contar com uma filmografia extensa e de qualidade, não me furto em apontar meus favoritos: “O abominável doutor Phibes”, “Museu de Cera”, “A casa dos maus espíritos” e “O túmulo sinistro”. Incluo aqui também uma participação memorável do ator em um episódio do Muppett Show. É impressionante com ele incorporava o estereótipo do ator de filmes de terror, uma autoparódia sensacional. Só posso dizer que Caco, Pig e companhia passaram por maus bocados.
Já Christopher Lee está mais ativo do que nunca, envolvido em diversas produções. De uns tempos pra cá, ele, que em minha opinião foi a encarnação mais assustadora do Conde Drácula, foi redescoberto por cineastas que passaram a adolescência vendo os seus filmes. Tornou-se cult. Tem Star Wars e O Senhor dos Anéis no currículo. Antes, foi até vilão em James Bond – um dos melhores, diga-se de passagem. Ano que vem, completa 90 anos. Vida longa a ele.
No dia 27, para celebrar a data, assisti “O ataúde do morto-vivo”, em que ambos atuam. Vê-los juntos em cena é algo sublime. O filme emana uma aura de puro terror. É um bom começo para quem deseja se iniciar na vasta obra desses mestres. Lembrando que conhecê-los é uma obrigação para quem ama o cinema. Caso contrário, do mesmo modo que “Vincent”, citando Edgar Allan Poe, você estará destinado às trevas: “... E a minha alma para fora dessa sombra que flutua sobre o chão não se levantará nunca mais”.


Tributo a Vincent Price




Vincent (Curta de Tim Burton, narrado pelo próprio Price)



Cenas de Lee como Drácula

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bite me

Quando o apocalipse zumbi acontecer e os mortos começarem a levantar de suas covas, com uma fome insaciável de carne humana, esqueça os valentões, os caras populares do colégio, eles não servirão pra nada. Você vai precisar de especialistas no assunto. Nada melhor, portanto, do que três amigos nerds, viciados em games, que passam o dia matando zumbis virtualmente. Eles sabem as regras e estão doidos para finalmente mostrar o seu valor para o mundo, mesmo que este esteja prestes a sucumbir.
Essa é a premissa da websérie “Bite me”, que já teve a sua primeira temporada concluída. São cinco episódios (média de 10 minutos cada um), que você pode acompanhar abaixo. Como os protagonistas mesmo falam, não interessa como a história começou. O importante é a criatividade no desenrolar dos fatos. Os pontos de vista apresentados. Então não é difícil entender porque a série caiu no gosto da galera. Enquanto vários filmes de zumbis baseados em vídeo games não dão nem pra saída, “Bite me” aposta na simplicidade do tema e “gráficos” excepcionais para divertir bastante, seja você “jogador-espectador” iniciante ou experiente.
Com muitas citações aos clássicos deste subgênero do terror e até uma discussão sobre quais filmes são, de fato, de zumbis, a série é obrigatória para quem curte um morto-vivo, seja nos games ou nos cinemas. No mais puro horror ou, como é o caso, com pitadas de comédia, num afiado humor negro. Tomara que a 2ª temporada não demore a sair...









O Elo Perdido

Sempre que ia à locadora, olhava para ele. Pegava, lia a contracapa. E nada. O deixava no mesmo lugar. O Rodrigo, meu amigo aqui do jornal, me ofereceu incontáveis vezes o arquivo que ele baixou da internet. Recusei cada uma delas. Muito medo. Era tão perfeito na minha memória, pra quê arriscar? Mas, ele não desistiu e me encontrou. Um belo dia – ou melhor, madrugada –, zapeando na TV por assinatura, eis que ia começar a exibição de “O Elo Perdido”, filme baseado na antiga série de televisão dos anos 70, que tanto assisti nas reprises da TVS (hoje SBT). Tomei, então, a decisão. Encarei o filme.
Ah se eu pudesse encontrar uma fenda dimensional, que me fizesse voltar no tempo. Não como a que a família Marshall se deparou no terremoto enquanto desciam a cachoeira. Não, não precisava ir tão longe, lá no tempo dos dinossauros. Cinco minutos antes de me acomodar no sofá bastavam. Desligava a TV, ia dormir e pronto. Me poupava uma boa dose de estresse. Isso é que dá não confiar nos meus instintos. Um filme que tem Will Ferrell como protagonista não pode dar certo. O cara até funciona em pontas, pequenas participações, mas à frente de um projeto sempre naufragou.
Veja bem, não é que o filme seja ruim. Ele é pavoroso. Esqueceram a ficção científica e fizeram uma comédia. E o pior, uma comédia que não faz rir. Ao contrário, é insultante, de mau gosto, com momentos de pura escatologia. O que dizer de um Cha-ka e Will Marshall se drogando, com direito a insinuações sexuais? E o dinossauro evacuando o personagem de Ferrel? Beira o ridículo. Sério mesmo que os roteiristas acharam que isso era engraçado?
A série era tosca, com limitação de cenários, figurinos, efeitos especiais que estavam mais para defeitos... Mas tinha conceitos interessantes, roteiros elaborados, criativos (pelo menos na primeira e segunda temporada) e, sobretudo, carisma. Era impossível não se envolver com a história, com a luta pela sobrevivência de uma família em uma terra pré-histórica. Além disso, o trabalho era sério. Foi criado até um alfabeto, com certa quantidade de palavras para os Pakuni, a raça de Cha-ka. Em resumo, a série tinha algo que o filme não mostrou em momento algum: dignidade.
No mais, era uma senhora diversão ver o T-Rex em stop-motion correr atrás dos personagens em todos os episódios até eles chegarem à caverna. E também tinha a abertura. Simplesmente sensacional. Até hoje não vi uma melhor em séries de ficção (veja abaixo). Lembro que corria para frente da TV toda vez que ouvia: “Marshall, Will and Holly, on the routine expedition...”. “O Elo Perdido” é, portanto, um exemplo de que grandes orçamentos não significam nada. Gastaram rios de dinheiro para fazer um filme bisonho, enquanto que uma série de poucos recursos até hoje, quarenta anos depois de seu lançamento, é lembrada com carinho pelos fãs.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Prepare-se para o pior

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos publicou uma campanha sobre como sobreviver a um apocalipse Zumbi. O texto indica ações para se proteger, inclusive com um Kit de Sobrevivência. Além disso, qualquer pessoa pode baixar os selos de informação da campanha.

Se os EUA já estão se preparando, é porque alguma coisa pode acontecer. Prepare-se você também!

O link da campanha é: http://emergency.cdc.gov/socialmedia/zombies.asp

Get A Kit,    Make A Plan, Be Prepared. emergency.cdc.gov

If you're    ready for a zombie apocalypse, then you're ready for any emergency.    emergency.cdc.gov

Get A Kit, Make A Plan, Be Prepared. emergency.cdc.gov

If you're ready for a zombie apocalypse, then you're ready for any emergency. emergency.cdc.gov

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Shit my dad says

Para um cara que já explorou os mais diversos mundos, pesquisou novas vidas e civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve, lidar com os filhos seria uma situação totalmente banal e tranquila, certo? Errado. Qualquer relacionamento familiar é bem mais complicado do que encarar um monstro alienígena por aí. E o Capitão Kirk, ops... William Shatner, sente na pele todas as agruras – mas também as delícias – de ter os seus pimpolhos já crescidos de volta para baixo de sua asa na série $#*! my dad says.
Tudo começou com um perfil criado pelo norte-americano Justin Halpern no Twitter sobre as pérolas soltadas diariamente por seu pai, devidamente anotadas depois que Justin perdeu o emprego e foi pedir arrego ao seu velho. Com 2.205.814 seguidores, o sucesso do perfil chamou a atenção e o convite para transformar essas tuitadas em livro não tardou. Resultado: um best-seller. Nesse ponto, o caminho para a televisão foi até natural. Só faltava o nome certo para encabeçar a produção. Quando William Shatner disse sim, estava tudo resolvido.
Vocês lembram de toda a canastrice do ator em Jornada nas Estrelas? O humor involuntário que muitas vezes tomava conta das cenas? Pois é, em $#*! my dad says Shatner pode usar à vontade todo o seu repertório, é permitido e aconselhável. As gargalhadas são garantidas. E até nos momentos mais ternos, meigos, essa composição ajuda na veracidade, já que o seu personagem, Ed Goodson, é um sujeito bronco, que só gosta das coisas do seu jeito e tem dificuldade para compreender a necessidade de afeto e carinho dos filhos. Assim, é legal vê-lo tentando se comunicar, a sua falta de habilidade, de tato, na hora de transmitir emoções.
Politicamente incorreta, a série pode ser considerada um oásis atualmente. Afinal, a patrulha está forte. Não pode fumar, beber, violência... Vemos um mundo cor de rosa na tela da TV. Qualquer comentário sobre alguma minoria, por exemplo, mesmo que não seja ofensivo, já é motivo para censura. E, cá pra nós, 90% dessa patrulha é formada por hipócritas, que defendem uma causa, mas pensam exatamente o contrário. $#*! my dad says fala abertamente sobre gays, tem confronto entre feminismo x machismo, tudo numa boa, sem estresse. Não há motivo para ter medo, são assuntos naturais, estão no dia a dia. Tem piadinhas? Claro, mas nada que ofenda. Apenas mostra o que, de fato, acontece nas ruas.
A série já garantiu uma segunda temporada por conta dos bons índices de audiência, refletidos na conquista do People’s Choice Awards nos EUA. Aos oitenta anos, William Shatner mostra que está em forma. Não aparenta a idade que tem. Comanda as ações com o mesmo pulso firme que comandava a Enterprise. É um ator com um carisma impressionante. Não precisa sequer se reiventar. Se continuar desse jeito, essa sua nova “missão” ainda vai durar uns bons anos.

Escrevi esse texto mês passado no Por Aí, do Diário do Pará. O último parágrafo deve ser desconsiderado, pois contrariando todas as expectativas a série foi cancelada. Enquanto isso, um monte de porcaria continua no ar...

Se quiser baixar a primeira temporada, você encontra os links nesse site: http://www.baixartv.com/download/shit-my-dad-says/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mangue Negro

“Adoro o cheiro de cérebros e tripas pela manhã...”. Se o coronel Kilgore, de Apocalypse Now, fosse um zumbi, a frase mais famosa do cinema seria essa. Como ele era um cara normal (ah, entendeu, né?), foi o napalm que entrou para a história. Mesmo assim, quem curte uma boa trama de mortos-vivos, pode usá-la sem contra-indicação. Afinal, em um gênero que produz anualmente uma quantidade considerável de filmes, encontrar aqueles que são realmente criativos é uma raridade. Fica no ar um cheiro de novidade que, no caso de Mangue Negro, é o odor fétido da decomposição dos corpos.
Embora o filme, produzido no Espírito Santo, seja de 2009, ainda não tinha ouvido falar dele. Em uma das minhas madrugadas insones, achei-o na internet para download. Uma rápida pesquisa e soube que ele percorreu alguns festivais de cinema fantástico no Sul e Sudeste do país, onde obteve um sucesso considerável. Resolvi conferir e não me decepcionei. É um belo exemplar de terror trash, na mesma linha de clássicos como Evil Dead e Fome Animal.
O que mais me chamou a atenção em Mangue Negro – além do fato de alguém se aventurar no cinema de gênero no Brasil, principalmente o terror, tão renegado – foi a preocupação em não cair na mesmice, de apenas imitar o estilo consagrado por George Romero. Zumbis nós temos aos montes, em todas as mídias. Eles estão na moda e não é de hoje. Então, o que o diretor capixaba Rodrigo Aragão fez foi inserir elementos da cultura brasileira nesse universo, criando uma identificação do espectador com a obra. Afinal, sempre soubemos que a contaminação era em escala mundial, mas nunca vemos isso na tela.
Assim, quando surge uma preta velha, destilando sua sabedoria, sabemos que a coisa é pra valer. Fora as crendices populares, como, por exemplo, usar o veneno do baiacu para salvar a mocinha de um destino nefasto. Ah, e claro que não podemos esquecer do pano de fundo que, seguindo a cartilha de mestre Romero, traz uma crítica social – no caso, tendo a ecologia como tema. É uma justificativa até bem interessante para o levante dos mortos, que geralmente ninguém sabe como começou. Na podridão dos manguezais do Espírito Santo, a vida tornou-se rara com a destruição dos sistemas ecológicos. Dali, só poderia sair mesmo a morte.
No mais, tem que ser ressaltado o trabalho de maquiagem, feito pelo próprio Aragão. Os zumbis ficaram assustadores, nojentos... O diretor também criou alguns animatrônicos, esses bem toscos. Mas como a ideia era passar uma sensação de decrepitude, o resultado não destoou. O amadorismo dos atores também ajudou na composição do clima realista do filme. Tá certo que, às vezes, dá uma agonia a falta de recursos do mocinho, uma espécie de Ash à brasileira, mas ele consegue funcionar. Outro aspecto que incomoda é o excesso de fades. O diretor poderia ter variado mais.
Mas nada que tire muitos pontos do filme. O fato é que o cinema brasileiro precisa de mais novidades do tipo. E Mangue Negro mostrou que não é difícil. Bastaram, no caso, 50 mil reais e um punhado de criatividade.

domingo, 17 de abril de 2011

A gênese do Horror


Quem acha que Crepúsculo é a fina flor da literatura de terror, precisa urgente começar a ter contato com os verdadeiros mestres do terror mundial como H.P. Lovercraft, Edgar Allan Poe e Mary Shelley, que viveram mais de um século antes de nós. Afinal, desde que o ser humano pisou na terra, ele usa da imaginação e da escrita para provocar a catarse diante do medo da Morte.

Uma boa dica para começar a entender como a literatura de horror, é ler a coletânea da Companhia das Letras chamada: “Contos de Horror do Século XIX”. O livro traz uma safra dos melhores escritores que viveram naqueles anos escolhidos por Alberto Manuel. O destaque começa pelos tradutores do contos escolhidos. Entre eles, gente do naipe de Milton Hatoum, Moacyr Scliar e Rubem Fonseca.

Para você ter noção do nível das histórias, entre os escritores publicados estão: Henry St. Clair Whitehead, H.G. Wells, Julio Verne, Joseph Conrad, Allan Poe, Guy de Maupassant, Bram Stoker, Eça de Queiroz, Conan Doyle e Robert Louis Stevenson. A maioria dos contos são desconhecidos para a maioria, o que torna a experiência ainda mais curiosa. O legal, é que são estilos, locais e apelos diferentes, desde o gótico até o romântico com pitadas de sobrenatural. Para mim, os melhores contos são:

- A Mão do Macaco (W.W. Jacobs) – abre o livro com estilo e conta a história de uma família onde a ganância ganha contornos trágicos com a posse de um artefato capaz de realizar desejos, mas sempre um preço a pagar.

- A Família do Vurdalak (Tolstói) – Conto que daria um filme de terror espetacular, traz a lenda dos vampiros escandinavos, que sempre mordiam parentes e amigos. As cenas finais são estupidamente cinematográficas.

- A Selvagem (Bram Stoker) – O escritor criador do Drácula mostra o talento ao trazer a vingança de uma gata ferida contra aquele que matou seu filhote. Cada parágrafo é construído de maneira a surpreender quem chega ao final do conto.

Enfim, literatura da melhor qualidade que influenciou muito do que hoje é feito na literatura, teatro e cinema. Procure nas melhores livrarias e sites de compras..

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Possessão

A manifestação física de uma séria confusão mental. Sentimentos como ciúme, desejo, desespero, excitação e medo deixam de ser algo abstrato e ganham vida diante de nossos olhos. Não existe um momento literal sequer na obra de Andrzej Zulawski, Possessão, de 1981. Tudo ali é orquestrado como um pesadelo, não obedece às leis naturais, desde a interpretação exagerada dos atores até a revelação do “monstro”. Uma estrutura sufocante, sim, repleta de metáforas e simbolismos. Mas totalmente conectada com o tema do filme, um casal em crise.
“É duro viver junto”, diz, já na reta final da projeção, o personagem de Sam Neill para si mesmo. É um momento de compreensão, um dos poucos respiros que o cineasta concede ao espectador, pois a intenção nunca é explicar e sim complicar. Afinal, assim são os relacionamentos. Complicados. Não é à toa que, em entrevistas, Zulawski afirma ter se baseado em situações de seu próprio casamento para criar o roteiro. Quem nunca sentiu, por exemplo, que estava prestes a explodir de tanta dor por causa de outra pessoa? Se os conflitos internos ganhassem uma dimensão real, ultrapassassem a barreira do corpo, o resultado não seria nada bonito, como mostra Possessão.
Esse título, aliás, abre caminho para uma dupla interpretação. Num primeiro momento, pode-se atribuir tudo o que acontece a uma possessão demoníaca, levar para o lado do misticismo. A cena que Isabelle Adjani está parada diante de uma imagem de Cristo poderia ser um indício dessa visão, por que não? Mas, para mim, isso seria desprezar a força negativa e destrutiva de uma crise no relacionamento. Insegurança, amor, ódio e, acima de tudo, posse. Não é preciso nenhum ser de outro mundo para tornar essa combinação mais danosa. Além disso, a cena citada é, a meu ver, outro instante surreal, já que em vez de pedir ou até implorar ajuda, a mulher apenas geme, mostra como está o seu estado de espírito.
E como a questão é não aliviar, ainda existe um outro vértice nessa história. O amante. A partir do momento que é descoberto pelo marido, os dois travam um duelo, um jogo mental. Ora um sai por cima, ora o outro. Mas eles não sabem que disputam uma mulher que está a anos-luz de saber o que realmente quer. A briga entre eles é a parte mais “pés no chão”, digamos, do filme. Ela está em um plano diferente, mais elevado. Os homens, afinal, nunca alcançam o nível de complexidade feminina. Eles querem aquela mulher de volta, ter o relacionamento que sempre tiveram. Para ela, isso já não basta. Ela evoluiu, eles não. A solução encontrada por ela, foi, então, “criar” o homem ideal, um ser multifacetado, que poderia suprir todas as suas necessidades sentimentais. Esse é o “monstro”.
Existem ainda muitos outros detalhes que poderiam ser abordados, como o viés político da Alemanha dividida pelo Muro de Berlim ou o reflexo no filho do casal, e até mesmo as demais relações existentes no filme. Mas a força maior é mesmo a tríade homem-mulher-amante. O fato é que Possessão faz barulho, gera debate, nos faz pensar. Mas incompreensível, como foi tachado, ele não é. Não para quem já viveu intensamente uma relação a dois. Homens e mulheres nasceram para ficar juntos, mas não conseguem. A incomunicabilidade impera. Os momentos felizes, aos poucos, vão sendo substituídos por brigas e discussões. Até que a dor se torna forte demais para continuar. O que antes era “pra sempre”, acaba, morre. Mas a vida prega peças. Um dia, a paixão ressurge e tudo recomeça...

Quando toda a dor e loucura transbordam

domingo, 3 de abril de 2011

Festim Diabólico

Brandon e Phillip devem ter tido pais muito ausentes, pois a eles cabe com perfeição o ditado "Está pedindo para apanhar e não tem quem dê". Mimados, parecem estar em uma eterna busca por atenção. Um comportamento aceitável na infância, mas que, na fase adulta,indica apenas egoísmo e arrogância. Se julgam superiores e querem que o mundo saiba disso e, claro, concordem com o seu ponto de vista. Para "se mostrar", arquitetam um assassinato e fazem uma festa para a vítima, com direito a convidados. Escondem o cadáver num baú, no meio da sala. Servem o jantar em cima dele. Não queriam ser pegos. Era apenas mais um teste para a sua suposta genialidade. Mas, afinal, de que adiantaria realizar o crime perfeito se ninguém ficasse sabendo, nem lhes dessem o devido crédito?
Esse sempre foi o mal dos vilões. Não seguram a sua língua. Mais de dez anos antes dos filmes de James Bond eternizarem essa figura caricata, Hitchcock já colocava em prática esse conceito em Festim Diabólico, filme de 1948. Claro que de forma mais sutil. Em vez de dar o plano de bandeja para o mocinho, num discurso bem explicativo, impera o humor negro. Insinuações, troca de olhares, linguagem corporal, detalhes do cenário. É assim que Brandon e Phillip dão as dicas do que fizeram. Brincam com a situação. Duas crianças que fizeram "arte" e tentam minimizar. O primeiro mais do que o segundo, pois neste ainda existe um resquício de consciência. Mas, submisso, segue as regras impostas pelo amigo. Já o "herói", o professor Rupert, aparece desvirtuado. É por ele que torcemos para que descubra a trama. Mas ele é também falho. Revela hipocrisia nas suas opiniões e atitudes. Ninguém ali é perfeito. Não há maniqueísmos.
Um fato curioso sobre Festim Diabólico é que ele é mais lembrado pelo enorme desafio técnico do que por essas nuances de seus personagens. É até justificável, já que Hitchcock fez o que seria impensável na época: filmar uma história em "tempo real", com o menor número de tomadas possíveis e mascarar os cortes para dar a impressão de continuidade, como se todo o filme tivesse um único plano-sequência. Empreitada hercúlea, sem dúvida. Mas relativizada pelo próprio Hitchcock, que considerou a ideia absurda, pois "renegava minhas teorias sobre a fragmentação do filme e sobre as potencialidades da montagem para contar visualmente uma história", conforme disse em entrevista a Truffaut.
Mesmo assim, o cineasta se aproveitou da técnica para conferir uma maior carga emocional para a trama, através do movimento dos atores pela sala e a tensão crescente cada vez que um deles chegava perto do baú (um personagem por si só), e torná-la mais intimista, já que, a medida que a projeção avança, os closes e detalhes, como o da arma do crime (uma corda) usada para amarrar livros, nos jogam no centro do arco dramático e nos transformam em cúmplices do assassinato, causando um óbvio desconforto. Além disso, foi o primeiro filme em cores de Hitchcock, o que só aumentou o caráter experimental do longa-metragem, que, por exemplo, buscou soluções para compor um pôr-do-sol razoavelmente crível pela janela do apartamento.
Classificado por seu criador como uma "experiência perdoável", Festim Diabólico não só é perdoável como também é um dos melhores filmes de Hitchcock, justamente por seu princípio de desconstrução. Se o cinema descobriu a eficácia da montagem e dela se utilizou para aprimorar a sua narrativa e linguagem, fundamentando-se como arte, Hitchcock mostrou que era possível encontrar alternativas a esse modelo sem cair na armadilha de tornar a produção uma peça de teatro filmada. Coisa de mestre.

Cena de abertura do filme

quarta-feira, 30 de março de 2011

Santa Internet (I)

Vamos tirar a poeira do blog e começar a dar dicas de sites e blogs que tratam da paixão pelo cinema, sem preconceito entre clássicos ou gore.. Enjoy!:

- www.bocadoinferno.com – Bom site brasileiro sobre cinema de terror, com artigos, críticas e notícias. O site antigo, que está disponível para consulta, tem um excelente acervo de textos sobre filmes trashs clássicos.

- http://filmesparadoidos.blogspot.com/- Blog de Felipe M. Guerra, colaborador do Boca do Inferno sobre cinema em todas as suas formas. Felipe fala desde o cinemão até obras obscuras da Boca do Lixo.

- http://osmortosvivos.blogspot.com/ - Bom acervo de filmes de zumbi para downloads.

- http://setimoprojetor.blogspot.com/ - a maior coleção de grandes filmes para baixar que já vi disponível em um blog. Para acabar com a memória do seu HD.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O garoto Zangief

Os valentões, as patricinhas, os CDF's, os esportistas, os esquisitos... Essa é a divisão básica (e preconceituosa, claro), as classes existentes no universo escolar, com uma ou outra variação. Em todo lugar do mundo é assim. Um processo de seleção natural que deixaria Darwin orgulhoso, pois as crianças e adolescentes, forçados a dividir aquele espaço todos os dias, durante anos, desenvolvem um senso de adaptação e sobrevivência impressionante. Dentro de seus grupos, estão protegidos, passam por essa fase da vida quase sem traumas. O problema acontece quando há um desvirtuamento desse esquema. Uma troca de colégio, de turma, sem os amigos para ajudar. Foi o que aconteceu com Casey Heynes, mais conhecido como garoto Zangief.
Casey se tornou um fenômeno midiático. Não lembro de ter visto uma tag durar tanto tempo no Twitter. Uma semana depois do ocorrido, lá estava ainda #zangiefkid nos TT's. Redes de televisão correram para entrevistá-lo, conhecer a história do moleque de quinze anos que resolveu dar um basta às provocações que sofria e, num golpe que lembrava o lutador Zangief, do jogo de videogame Street Fighter (o famoso pilão), botou para correr o seu oponente. Sozinho, sem o grupo para protegê-lo, Casey era presa fácil. Encurralado nos cantos da escola e nas suas imediações, era humilhado. Tinha medo. Justificável, pois sempre era cercado de forma covarde. Nunca era no "mano a mano". Triste, pensou em suicídio. Mas achou força para reagir. Virou herói. Exemplo.
A violência não pode nem deve ser estimulada. Mas nesse caso, não há como deixar de exclamar: "boa, moleque, é isso aí". Afinal de contas, ele apenas se defendeu. Mostrou que tem sentimentos, que merece ser respeitado. Não é melhor, nem pior que ninguém, só quer ter o direito de ir e vir assegurado. Nas entrevistas que deu, Casey se mostra embaraçado com essa fama repentina. Não almejou isso. Riu ao ser perguntado se era um super-herói. Queria ser um. Que garoto não queria? O importante para ele é o apoio. Antes sozinho, tem o mundo ao seu lado agora. Pelo menos o virtual. Mensagens chegam a ele de todas as partes. Meninos e meninas que viram nele uma esperança, que sofrem com o bullying e vislumbram uma luz. A mudança pode estar perto.
O pai de Casey se mostrou chocado. Não sabia o que dizer, gaguejava. Desconhecia o que o filho enfrentava. Ele sofria calado. Mesmo tendo a irmã como porto seguro, para um menino, não ter o pai ali, do lado, é cruel. Quem sabe isso tudo não os aproxime? Conversar, fazer coisas juntos. Ainda há tempo. Basta querer. Agora, eu queria ouvir também o outro lado. O do garoto agressor. Ele também deve ter uma história interessante. Por que age dessa forma? Como é a sua estrutura familiar? Ninguém se propôs ainda a ouvir a sua versão. Ele não é apenas o vilão. Tachá-lo assim é ser maniqueísta, tapar os olhos para a realidade. Talvez ele tenha tantos problemas quanto Casey. Não enxergar isso é entrar na onda da divisão de classes exposta no primeiro parágrafo. É ser preconceituoso.
John Hugues retratou isso com perfeição no clássico oitentista "Clube dos Cinco". Juntou um representante de cada "classe" e os colocou numa sala de aula, onde teriam que passar um dia inteiro juntos, convivendo. Lá, eles descobriram que tinham muitas afinidades e, que, apesar de todas as diferenças, podiam ser amigos. Mas isso seria por aquele dia somente. Fora daquele ambiente, o simples fato de conversar entre eles, de dar atenção, seria mal visto entre os membros dos seus respectivos grupos. Onde já se viu uma patricinha dar bola para um nerd? Um esportista bonitão tratar igualmente um desajustado? Eles se tornariam párias. E ninguém queria isso. O jeito seria fingir. Hipocrisia. É o mal da sociedade. E isso já se aprende na escola. Uma pena.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Dead Island

Esse provavelmente é o melhor trailer que já fizeram de um jogo de videogame de terror. O jogo se chama Dead Island e será lançado para PlayStation 3, PCs e Xbox 360 ainda no primeiro semestre, pela empresa Techland. O jogo é um suvivor game em uma ilha paradisíaca tomada por zumbis sedentos.

Confira:
(Via Site Omelete)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um filme de terror

As luzes já haviam sido acesas e uma boa parte do público já tinha levantado para sair da sala de cinema. Mas eu ainda estava lá, sentadinho no meu lugar, com a respiração presa e os olhos fixos na tela, os créditos passando. Mentalmente, revi o filme em questão de segundos e cada lembrança só fez reforçar o choque, o impacto que a viagem da protagonista ao seu subconsciente me causou. A forma como seus medos, inseguranças, limitações e força de vontade para superá-las ganham vida, literalmente, tornou Cisne Negro uma das melhores produções de terror a que já assisti.
E cuidado para não confundir. Uma unha quebrada, a pele do dedo sendo arrancada... São situações aflitivas, sem dúvida, mas não é aí que está o terror. Tudo é muito sutil. O terror está, principalmente, no olhar de Nina (Natalie Portman) ao perceber o quanto é infantilizada, que não sabe lutar pelo que deseja, enfim, que não está preparada para enfrentar o mundo. Um medo que cada um de nós já sentiu em algum momento. Medo de arriscar, do desconhecido, medo de viver.
Trata-se, portanto, de um tema comum a vários filmes, um processo de crescimento pessoal, superação. O diferencial aqui não é o conteúdo, dramático por natureza, mas a forma, que é o que, de fato, o transforma em um thriller: sentimos na carne a deterioração psicológica de Nina e a sua consequente “mudança” de atitude, fisicamente falando, numa verdadeira fusão. Não há divisória. O que ela sente e pensa é mostrado, é literal. É simplesmente perturbador.
Um detalhe interessante é o uso de espelhos como personagens da narrativa. Recurso barato e recorrente em filmes assumidamente de terror (hoje em dia um clichê), os espelhos aqui não cumprem apenas a função de “assustar” o espectador, mas interagem com a protagonista e nos dão a dimensão de como está o seu desenvolvimento, tanto na questão puramente técnica, da dança, como no que diz respeito à sua personalidade, vista dos mais diversos ângulos.
Isso é genial pelo simples motivo de que só com espelhos, com múltiplos olhares, tenhamos uma noção exata (talvez nem dessa forma) de quem somos realmente. E é assim com qualquer pessoa. O normal durante a vida é potencializarmos apenas algumas das nossas características e nunca conhecer até onde podemos chegar. Nosso lado escuro (e todos têm) grita, pede pra sair, mas o reprimimos, temos medo do que possa acontecer se o soltarmos. Isso é terror.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Era uma vez...

Dois adolescentes jogados num sofá. Uma olhada rápida no ambiente permite dizer que ele está em total simbiose com seus ocupantes: tudo é muito feio e sujo. Toda a atenção é voltada para o aparelho de televisão, com o som nas alturas. Puro metal. Durante a exibição de clipes, a dupla destila seus comentários. O humor negro, a acidez e o palavreado chulo imperam. Eles riem de suas próprias tiradas. Uma risada contagiante. Mas, quando um dos garotos derruba sua coca-cola no controle remoto, algo acontece. A TV parece entrar em curto e fica saltando de canais. Sintoniza a Al-Jazira, a CNN, a RAI, filmes em pay-per-view e, por fim, para, sem possibilidade de troca, no canal 24h do Big Brother Brasil. Os garotos, Beavis e Butt-Head, se entreolham e exclamam: “WTF”!
Como levantar do sofá para tentar consertar qualquer que tenha sido o problema não era sequer uma alternativa e o programa já mostrou, em menos de um minuto, dez closes de peitos e bundas, os garotos ficaram assistindo, compenetrados. O idioma diferente era o de menos, já que a linguagem corporal apresentada era universal. Os olhos esbugalhados a cada aparição feminina, seguida de uma rápida ida ao banheiro, claro, contrastavam com a revolta pelo tempo desperdiçado com homens se gabando de seus músculos. E não era porque o heavy metal cessara que os comentários mordazes tiveram o mesmo destino.
No começo, os jovens se limitavam a relacionar tanta testosterona com a pequenez do órgão sexual e do cérebro dos homens, além de fantasiar o que eles fariam com a “abundância” de (as) mulheres vistas na tela. As festas diárias naquela casa os fizeram planejar viagens ao Brasil para participar de toda a sacanagem, embora a música tocada não os agradasse nem um pouco. Numa das raras saídas da frente da TV, apenas para reabastecer o estoque de junk food, um deles teve a ideia de pesquisar no Google sobre o programa. Em um site, leram uma reportagem que os deixaram estarrecidos: o Big Brother era um reality show levado a sério, que existia em diversos países, não sendo apenas um entretenimento feito para moleques como eles, que precisavam liberar a sexualidade.
A descoberta, aliada ao fato de que o vencedor ganharia uma bolada em dinheiro, de tão absurda que era, fez com que Beavis e Butt-Head se animassem em querer participar do programa, um verdadeiro culto à imbecilidade e, por isso mesmo, um prato cheio para a dupla. Onde mais as pessoas se deixam enganar por montagens, como num videoclipe (e disso eles entendiam), e compram isso como “realidade”, premiando, na maioria das vezes, um completo idiota? Eles poderiam fazer fortuna, sem dúvida. Era só colocar a mochila nas costas e percorrer os países que exibiam o programa para se inscrever e faturar uma grana, já que estavam há tanto tempo no limbo.
Assim, primeira passagem na mão e claro que para o Brasil, já que eles não desperdiçariam a chance de ficar três meses numa casa ao lado das mulheres mais belas do planeta, só na curtição, sem fazer nada, ser chamados de “heróis” e, quem sabe, voltar aos holofotes, emplacando uma série ou novela por aqui. E eles quase conseguiram o seu intento. Mas o criador da dupla, Mike Judge, pressentiu o que os seus personagens estavam tramando e resolveu resgatá-los. Dar-lhes uma nova chance, novos episódios do próprio programa após anos de “desemprego”. A proposta era irrecusável e a viagem ao redor do mundo foi adiada. Afinal, é certo que esse tal de Big Brother terá vida longa, oportunidade não vai faltar. Hehehe, hehehe, hehehe...






segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Framboesa de Ouro

A coordenação do Framboesa de Ouro (Razzies Awards) divulgou a lista dos indicados a piores do ano de 2010 no mundo do Cinema. o Razzies é uma paródia ao Oscar e a cerimônia de premiação acontece no dia anterior aquela premiação de Hollywood.

Confira os indicados:

Pior filme
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- "O último mestre do ar"
- "Os vampiros que se mordam"
- "Sex and the city 2"
- "Caçador de recompensas"

Pior ator
- Jack Black - "As viagens de Gulliver"
- Gerard Butler - "Caçador de recompensas"
- Robert Pattinson - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Taylor Lautner - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Ashton Kutcher - "Par perfeito" e "Idas e vindas do amor"

Pior atriz
- Jennifer Aniston - "Caçador de recompensas" e "Coincidências do amor"
- Miley Cyrus - "A última música"
- Kristen Stewart - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Megan Fox - "Jonah Hex"
- Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon - "Sex and the city 2"

Pior ator coadjuvante
- Billy Ray Cyrus - "Missão quase impossível"
- George Lopez - "Missão quase impossível", "Idas e vindas do amor" e "Marmaduke"
- Dev Patel - "O último mestre do ar"
- Jackson Rathbone - "O último mestre do ar" e "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Rob Schneider - "Gente grande"

Pior atriz coadjuvante
- Cher - "Burlesque"
- Liza Minnelli - "Sex and the City 2"
- Nicola Peltz - "O último mestre do ar"
- Barbra Streisand - "Entrando numa fria maior ainda com a família"
- Jessica Alba - "The killer inside me", "Machete", "Idas e vindas do amor" e "Entrando numa fria maior ainda com a família"

Pior diretor
- Jason Friedberg e Aaron Seltzer - "Os vampiros que se mordam"
- Michael Patrick King - "Sex and the City 2"
- M. Night Shyamalan - "O último mestre do ar"
- David Slade - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Sylvester Stallone - "Os mercenários"

Pior roteiro
- "O último mestre do ar"
- "Entrando numa fria maior ainda com a família"
- "Sex and the City 2"
- "Vampiros me mordam"
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"

Pior casal ou elenco
- Jennifer Aniston e Gerard Butler - "Caçador de recompensas"
- O rosto de Josh Brolin e o sotaque de Megan Fox - Jonah Hex
- Todo o elenco de "O último mestre do ar"
- Todo o elenco de "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Todo o elenco de "Sex and the City 2"

Pior sequência, versão ou paródia
- "O último mestre do ar"
- "Fúria de titãs"
- "Sex and the City 2"
- "Vampiros me mordam"
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"

Pior uso de 3D
- "Cats and dogs 2: The revenge of Kitty Galore"
- "Fúria de titãs"
- "O último mestre do ar"
- "Nutcracker 3D"
- "Jogos mortais 7 3D"

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Orgulho e Preconceito e Zumbis


No início do século dezenove, a aristocracia inglesa ditava as regras e o jogo de aparências era mais valorizado do que nunca. O papel das matriarcas, por exemplo, era quase unicamente arrumar bons pretendentes para suas filhas e casá-las o mais depressa possível. Essa missão, aos olhos de hoje, causa repulsa. A vontade que dá é de mandar um exército de zumbis para se banquetear com os cérebros, não só dessas mães, mas de todos que compactuam com ideias do tipo, além de outras arrogâncias, sempre ligadas ao status social.
Vontade essa, em parte, saciada pelo escritor Seth Grahame-Smith, que fez uma releitura trash do romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, inserindo mortos-vivos na narrativa, que se transforma, então, um uma deliciosa comédia de costumes de humor negro. Apesar de ter mantido 85% do texto original – até por isso mesmo, pensando bem -, o trabalho deve ter sido bastante exaustivo. Afinal, a intenção não era descaracterizar, e sim mudar a contextualização. Portanto, se você estiver familiarizado com a história, o prazer de ler será maior ainda.
A famosa família Bennet, que já passou por tantas encarnações no cinema, na televisão e no teatro, ressurge na literatura com uma característica adicional: a habilidade nas “artes mortais”. Todas as cinco herdeiras foram enviadas à China para se tornarem guerreiras e ajudarem no combate aos “não-mencionáveis”. A contragosto da mãe, é claro, que prefere vê-las bordando e assumindo suas posições submissas em relação aos maridos. Voltando ao que disse lá no primeiro parágrafo, acho que só não rolou uma licença poética mais aprofundada aqui, porque os zumbis não achariam seu precioso cérebro nesta cabeça oca.
É legal notar a forma como o “co-autor” consegue tratar o preconceito nesses novos elementos. Como a família Bennet é simples, ir para a China estudar com monges guerreiros é visto sob uma ótica desprezível, já que o Japão goza de melhores conceitos, com seus ninjas. Isso, claro, é somente na teoria, já que Elizabeth Bennet, a nossa heroína, é uma das mulheres mais letais de toda a Inglaterra. E, tenho que dizer, imaginá-la partindo pra cima do Sr. Darcy, dos zumbis e de qualquer um que ouse desafiar a sua honra é de rolar de rir, pois essa atitude é, simplesmente, uma extensão do seu temperamento.
Se a entrada dos elementos sobrenaturais funciona como chamariz de vendas – o que, de fato, ocorreu, com o livro no topo das listas e, inclusive, com direitos vendidos ao cinema -, a grande sacada foi não se escorar só nisso e fazer o trabalho com responsabilidade. Afinal, todos sabem que onde há zumbis no meio, a probabilidade de existir uma crítica social, à la George Romero, é grande. Era só se aproveitar disso. Assim, se a leitura original, embora reflexiva, já era leve e gostosa, as decapitações e demais banhos de sangue adicionam uma boa dose de diversão.