segunda-feira, 2 de julho de 2012

Donnie Darko (Donnie Darko, 2001)






            I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very very
Mad world
Mad world
Enlarging your world
Mad world
(Gary Jules – Mad World)

(Atenção: spoilers pra quem não viu o filme)

De início, Donnie Darko parece um daqueles dramas indies de famílias suburbanas americanas. Familia em volta da mesa de jantar, discutindo como foi seu dia. Mas, logo, a história mostra-se muito mais que isso. Donnie Darko é uma fábula sobre a vida e a morte e como os jovens encaram o tempo. Donnie é um rapaz problemático. Tem histórico de agressividade. Toma remédios, xinga a mãe. Já causou problemas na escola. Um dia, uma turbina cai no telhado de sua casa, bem em cima da sua cama. Por sorte (sorte?) ele não estava lá, pois estava seguindo um coelho feioso gigante lá fora. O coelho que irá acompanhá-lo em suas visões.
 
Donnie Darko é uma experiência a princípio confusa, mas que faz bastante sentido no final. Nas suas alucinações, Darko consegue ver relances do futuro, personificados em forma de coelhos ou bolhas temporais. E assim, acaba alterando-os, criando um buraco de minhoca “wormhole” em cima da sua própria casa. Que é onde a turbina cai no futuro. O próprio buraco provoca o acidente de avião que derruba a turbina onde está sua mãe e irmã. Na sua primeira elipse temporal, Donnie acorda no meio de uma estrada, a mesma onde percebe que a tragédia só poderia terminar com seu sacrifício. Este sacrifício que faz com que a linha temporal se restabeleça, sem a sua presença (há uma analogia anos depois em Fringe, com o sacrifício de Peter mudando a linha temporal da série).

Nesse sentido, as ordens do coelho para que Donnie alague a escola ou queime a casa do guru de auto ajuda demonstram as possibilidades de futuro, onde Donnie conhece a mulher que ama ou desmascara um pedófilo. Quando percebe que os fatos que eram futuro agora são presentes, Donnie decide acabar com a própria vida com o novo acidente da turbina e restabelecer o fluxo interrompido na primeira queda. Mas, antes envia uma carta para a senhora louca que escreveu o livro e foi a única além dele a atravessar a linha do tempo. Não é a toa que elas todos os dias verifica se a carta de Donnie do futuro chegou.
 
É a partir desse novo contexto que Donnie começa a perceber porque é um rapaz só. Ele se isolou do mundo. E essa vontade de se integrar novamente, abraçar as paixões, pode ter conseqüências. Aqui, trágicas. E tal qual o coelho de Alice no País das Maravilhas, o coelho aqui (real ou imaginário), é responsável por guiar o jovem para o futuro. Entre alucinações e outras, o adolescente recebe missões. Falsas promessas. Para evitar o fim do mundo. Mas, não se pode evitar a morte. Nem uma turbina que cai em cima da sua cama. “Donnie trapaceou a Morte”. Mas, trapacendo-a, Darko criou uma nova linha temporal. Ele está salvo, mas e quem ele ama?. É essa a mensagem do filme. Que nosso destino é feito pelas nossas escolhas. Algumas são bem ruins. E não temos como voltar no tempo e impedi-las. Porque isso requer sacrifícios.

O roteiro do filme é maduro o suficiente para apresentar pistas da espiral do tempo que move o garoto durante todo o filme. (Lembrem de Donnie golpeando no espelho justamente o olho que irá atirar no coelho – namorado da irmã). Enfim, uma experiência imperdível de um excelente filme, que merece ser redescoberto.

Algumas Notas sobre o filme:

- O elenco é muito bom, com destaque para o então desconhecido  Jake Gyllenhaal, que depois se tornaria um astro. Maggie Gyllenhaal, que faz a irmã mais velha de Donnie, também é irmã de Jake fora das telonas.

- Patrick Swayze tem aqui o melhor papel da sua carreira, como o guru de auto ajuda com intenções nada boas.

- A melhor cena do filme é aquela que a câmera percorre a escola ao som de Head Over Heels do Tears for Fears, que fala sobre... o tempo e apresenta todos os personagens.

- Aqui, o diretor Richard Kelly parecia ser um diretor promissor, mas depois descambou para coisas como Southland Tales e A Caixa. Duas porcarias que tentaram imitar o clima de mistério e ficção científica de Donnie Darko, mas se revelaram duas experiências medíocres.

- Drew Barrymore, que faz a professora de literatura, também é produtora do filme.

- Atentem para Seth Rogen, em início de carreira como o amigo do Bad boy da escola.

- A música que encerra o filme é uma versão de Mad World, também do Tears for Fears, feita pelo cantor Gary Jules.

- A trilha, aliás, tem outros clássicos como Killing Moon, do Echo and the Bunnymen
  


Um comentário:

Maick Costa disse...

Bom post! O que mais me atrai em roteiros de viagens no tempo é conseguirem fechar todas as pontas que uma viagem no tempo acarreta: o futuro só acontecerá por causa de um passado, que por sua vez aconteceu por causa de um outro passado (futuro), que decorreu em consequência de um um terceiro passado e por aí vai até explodir a cabeça. Acredito que só se consegue um roteiro assim, escrevendo-o de trás pra frente.

Jake Gyllenhaall com uma atuação consistente para o papel de um jovem transtornado, mas que no fundo sabe o que se passa (aqueles sorrisinhos enquanto sonâmbulo). A única coisa que me incomodou, fora a atuação dos pais, foi a não manutenção da voz do coelho em todas as cenas. Algumas cenas não mantiveram aquela voz sombria.

P.S.: Drew Barrymore como professora. Sonho de qualquer aluno...