terça-feira, 7 de agosto de 2012

Batman

Filmes que adaptam histórias em quadrinhos não costumam ter meio termo na sua relação com o espectador/fã: é amor ou ódio. E a fidelidade ao material de origem é mais importante do que os aspectos cinematográficos. Não deveria ser assim. Primeiro porque a própria mídia, a chamada nona arte, tem na reinvenção dos seus personagens uma fonte de poder. Ao longo do tempo, universos são criados e explorados da forma que o artista responsável ache mais conveniente. Acabou aquele arco dramático? Põe-se um ponto final e vida que segue. Uma nova história, que pode ou não levar em consideração eventos anteriores, se apresenta. 
Nas telas, apenas a trilogia X-Men havia utilizado esse conceito, sem medo de matar personagens clássicos, por exemplo, e conduzir uma narrativa com princípio, meio e fim, sem o caráter episódico que marcava até então os filmes do gênero. É aqui que entra o Batman de Christopher Nolan. Com uma proposta similar, o diretor concebeu uma trama que conta os primeiros anos do herói. Aliás, não apenas do herói, mas também a do homem, Bruce Wayne: a formação dessa dupla persona e como elas interagem entre si e com o povo de Gotham City. 
Na verdade, o caminho para um filme do Batman com uma abordagem mais realista estava pavimentado há anos, desde que Joel Schumacher produziu dois filmes circenses do homem-morcego, que seriam totalmente válidos se assumissem o seu lado kitsch, como a bem-sucedida série dos anos 60, até hoje lembrada com carinho pelos fãs. Mas não, Schumacher não encontrou o tom e caiu no ridículo, sem ser engraçado, o que é pior. Assim, levar o personagem a sério era a solução mais viável para quem ficasse à frente de uma nova versão. 
 Sob esse aspecto, Nolan fez o seu trabalho direitinho. Mostrou, sem pressa e com cuidado, o surgimento do Batman, levemente inspirado em algumas obras dos quadrinhos, como “Ano Um”, de Frank Miller, “A Piada Mortal”, de Alan Moore, e “O Longo Dia das Bruxas”, de Jeph Loeb, mas sem nunca deixar de lado os seus próprios preceitos e, também, o seu estilo cinematográfico. E isso é o mais importante. Nolan, embora tenha tido a preocupação de agradar aos fãs das HQs, não perdeu de vista que estava fazendo cinema. Investiu no seu campo de atuação e se deu bem. 
Begins foi um ótimo filme, estabeleceu aquele universo fantasioso como plausível. Essa foi a sua maior qualidade. Já O Cavaleiro das Trevas é o cinemão hollywoodiano em um de seus melhores momentos, com um roteiro que aposta na inteligência do público sem deixar de ser divertido. E tudo é potencializado pela atuação de Heath Ledger como o vilão mais emblemático da saga. A parte 2 da trilogia foi o auge. Superá-lo seria complicado, mesmo para Nolan, que agora contava com o apoio quase unânime dos fãs. E a previsão se confirmou. O Cavaleiro das Trevas Ressurge é bom, sem dúvida, e fecha a trama de forma digna, mas não chegou nem perto do nível de excelência do seu antecessor, como alardeiam por aí. 
São compreensíveis os exageros nos elogios, já que o adjetivo se aplica de certa forma ao cinema de Nolan. Ele tem um quê megalomaníaco, gosta de trabalhar com escalas grandiosas. Quando sabe dosar, como foi o caso de O Cavaleiro das Trevas, o resultado é excepcional. Mas às vezes o filme se perde na sua grandiosidade e isso pode ludibriar, mascarar suas falhas. Nesta última parte, Nolan não foi tão atento aos detalhes, deixou que o “intrincado” ganhasse ares de “confuso”. Buracos no roteiro são perceptíveis até para quem não é familiarizado com técnicas cinematográficas, como incoerências nos planos de Bane e saídas inverossímeis para os conflitos apresentados (não vou me aprofundar para não dar spoilers). 
Mas o que mais incomoda em O Cavaleiro das Trevas Ressurge é a sua previsibilidade. É muito óbvio o que está acontecendo, o elemento surpresa é esvaziado logo de cara e as “revelações” na parte final soam tolas. O problema é que ele é o tipo de filme que te deixa de boca aberta à primeira vista, com cenas impactantes como a do futebol americano. Mas quando passa a empolgação e você começa a pensar sobre ele... É, poderia ser melhor. Assim, se distancia do próprio universo sobre o qual foi criado e se aproxima de uma aventura de James Bond. Não que seja um demérito, só um pouco destoante. Por outro lado, a incursão pelos dramas pessoais de Bruce Wayne é elogiável, assim como a composição da Mulher-Gato pela Anne Hathaway, culminando na relação de tensão/romance entre os dois, tornando-os, de longe, os personagens mais interessantes do longa. 
De qualquer forma, o caminho escolhido por Nolan na trilogia como um todo é altamente benéfico para as adaptações de quadrinhos. Ele deu a sua visão, contou a sua história. E mais: fez com que o seu trabalho não fosse apenas uma transposição do papel para a tela. Não, ele fez cinema. E do bom, apesar das ressalvas. Depois, outro diretor virá e fará algo novo, completamente diferente. Dizem que o Batman deve voltar a aparecer em 2016. Se melhor ou pior, com abordagem realista ou non sense, fiel ou não aos quadrinhos, só o tempo dirá. Contanto que seja cinema de qualidade, vale tudo.

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