sábado, 25 de agosto de 2012

O primeiro trash a gente nunca esquece


É uma das minhas primeiras lembranças cinematográficas. Levado pelo meu avô João, assisti a Mestres do Universo ali no Cine Iracema, que depois virou Nazaré 2 e que hoje, infelizmente, deu lugar a uma Lojas Americanas. Época boa a dos cinemas de rua. Mas isso é tema para uma outra história. O que quero dizer é que, desde cedo, o trash fez parte da minha vida. Afinal, não tenho dúvidas de que ver o canastrão do Dolph Lundgren como He-Man, aos quatro anos de idade, teve papel fundamental na construção do meu gosto por essas pérolas “B” da sétima arte.
Não que Mestres do Universo mereça a classificação de “pérola” (cult muito menos, por favor), a não ser por um sentido pejorativo, pois o filme é muito ruim. Uma afronta ao cinema e aos fãs do personagem. Só o que vale é minha ligação sentimental mesmo: o primeiro trash a gente nunca esquece. Além disso, o que motivou esse texto foi o aniversário de 25 anos da produção dirigida por Gary Goddard, “comemorado” na última terça-feira (21). Um longo tempo durante o qual sempre se especulou uma continuação ou um recomeço para a história, que nunca saiu do papel, fazendo com que o famoso “Eu voltarei”, promessa/ameaça do vilão Esqueleto, no fim do filme de 1987, soasse como papo de candidato em período eleitoral.
Sobre o filme: nada de Gorpo – mas tinha um anãozinho inventor muito feio lá pra tapar esse buraco causado pela falta de grana para os efeitos especiais; nada de Gato Guerreiro e Príncipe Adam também. Descaracterização absoluta. É incrível como os responsáveis conseguiram desperdiçar toda uma leva de bons personagens que fazia parte do desenho, originalmente, para criar outros totalmente desinteressantes e sem função para a narrativa. Para fechar com chave de ouro, a trama bobinha se passa na Terra, acredito que só para ter aquelas cenas engraçadinhas de “choque cultural” entre He-Man, Teela, Mentor e um casal de adolescentes irritantes.
Nesse ponto, para se ter uma ideia, o filme guarda certa semelhança com Comando Suburbano, outra terrível produção - “estrelada” pelo ex-astro de luta livre Hulk Hogan - que a minha memória seletiva para besteira guarda em um cantinho por aqui. Um ser do futuro ou de outra galáxia passa a conviver com os terráqueos e desenvolve grande afeição por eles, salvando-os do seu arqui-inimigo que veio ao planeta causar destruição. Esse era o mote de vários “filmes-podreira” de ficção científica na década de 1980.
Voltando especificamente a Mestres do Universo, o Esqueleto foi a única coisa que se salvou no filme, mesmo ele tendo a cara branca e não amarela. Mérito do Frank Langella, claro, um ator de mão cheia rodeado por um mar de mediocridade. Ele não fez o vilão divertido como nos desenhos, apostou numa abordagem mais séria e assustadora (na medida do possível) e convenceu. Só  o que estragou foi o visual do “Super Esqueleto” na reta final, quando o personagem também embarcou no ridículo que dominava a película. Ah, sem contar que a ideia de ele conquistar o Castelo de Grayskull como ponto de partida para a ação é fora de propósito. Lembram da clássica pergunta das provas de biologia: “Qual a função do Esqueleto?”. Resposta: “Vencer o He-Man e conquistar o Castelo de Grayskull”. Não inventem. A história é forte por si só, bastava um bom roteiro.
E já que falei no Castelo, o que era aquilo? O que era para ser um lugar misterioso, sombrio, cheio de segredos por detrás das suas muitas portas, virou um carro alegórico, envolto em um dourado suntuoso. Quem idealizou o cenário nunca viu o desenho, só pode. Para finalizar, como já falamos que extirparam o príncipe Adam, o “Pelos poderes de Grayskull. Eu tenho a força” perdeu todo o sentido: sem transformação, é apenas um grito, um exercício de voz narcisístico, por assim dizer. E poderia listar outros mil defeitos, mas vocês já entenderam. O problema é que, se Mestres do Universo passar numa Sessão da Tarde da vida, vou resmungar do início ao fim, mas assistirei, claro. O que eu posso fazer? Foi meu primeiro trash e meu coração cinematográfico é vagabundo.


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