segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um Messias simbólico


(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural, do jornal Diário do Pará, caderno Você, de 02/02/2015)

No seu livro “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock n Roll salvou
Hollywood”, Peter Biskind descreve Hal Ashby como uma figura peculiar
na capital da indústria do cinema. Com um visual quase hippie e
desleixado, Ashby circulava pela alta sociedade hollywodiana com seu
estilo rebelde e atitudes grosseiras. Ele começou na sétima arte como
montador e quase sempre brigava com os diretores das obras que
montava. Quando se aventurou por trás das câmeras, dirigiu grandes
produções como a comédia Shampoo e os dramas Ensina-me A Viver e
Amargo Regresso. Mas, consumido pela bebida e pelas drogas, seu gênio
foi se perdendo em produções menores para a televisão até morrer
vitimado pelo câncer em 1988.
Dez anos antes de morrer, Hal Ashby criou, para mim, o seu verdadeiro
canto do cisne: Muito Além do Jardim (Being There, 1979). O filme
funciona perfeitamente como uma alegoria da própria vida do cineasta.
Peter Sellers, genial como sempre, interpreta Chance, um jardineiro
sem passado, sem documentos e com limitações mentais. Bondoso e
ingênuo, ele se vê perdido no mundo quando seu patrão, dono da mansão
onde passou a vida trancado, morre e ele é obrigado a deixar a casa. A
partir daí, uma série de coincidências e jogos de interesses o levam a
situações surreais, onde conhece inclusive o presidente da República.
Mas, Chance tem uma visão deturpada da realidade, moldada por anos e
anos assistindo solitariamente à televisão. E temos, claro, um dos
maiores atores a passar pelo cinema americano. Peter Sellers é
espetacular como de costume. Alguns dizem que é a sua melhor atuação,
mas ainda prefiro seu trabalho em Dr. Fantástico. De qualquer forma,
ele foi indicado ao Oscar, onde perdeu para Dustin Hoffman por Kramer
Vs Kramer.
Falar mais sobre a história é estragar as surpresas e simbolismos do
roteiro, mas claramente Muito Além do Jardim inspirou outras produções
com seres humanos deslocados socialmente como O Grande Lebowski, Zelig
e, é claro,  Forrest Gump. O cultuado filme de Robert Zemeckis guarda
muitas similaridades com este feito quase duas décadas antes e ambos
são muito importantes para a história do cinema, apesar da produção
com Tom Hanks ser mais conhecida . Criado como uma fábula moderna, a
obra é atual na sua própria essência: o jardineiro não sabe lidar com
as maquinações e conflitos da sociedade moderna e a metáfora da
televisão poderia muito bem ser trocada por tablets e smartphones
conectados em redes sociais sem nenhuma perda semiótica: estamos tão
perdidos em nossos próprios mundos como Chance e repetimos pensamentos
clichês sem nem darmos uma chance ao pensamento crítico. E ainda somos
repetidos e admirados em nossas próprias limitações.
Se há poucos caminhos para ele percorrer nos círculos sociais, a saída
encontrada por Ashby para o fim do filme é sensacional. A cena final
tem um dos planos mais bonitos já feitos. A prova final do talento de
dois grande mestres. Sellers morreu seis meses depois do lançamento do
filme e este plano em especial foi praticamente sua despedida da vida.
Como um messias solitário, um cavalheiro capaz de andar sob as águas
sem destino certo.

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