segunda-feira, 9 de março de 2015

Birdman ou a inesperada virtude de vários oscars

(Texto Originalmente publicado no Diário do Pará, coluna Diário Cultural do caderno Você, edição de 09/03/2015)

Birdman é um deboche. Um pastiche intencional sobre a construção artística. Ou, como diria a crítica de arte do jornal no filme, é a destruição do conceito puro que moveria a arte e sua criação. Uma ode à perda da aura de Walter Benjamin. Ou uma elegia ao fim desta diante da indústria cultural, vai saber.
O certo é que o novo filme de Alejandro González Iñárritu está – bastante - interessado em deixar o espectador de cuecas diante da tela. Pronto para se atirar do prédio e sair voando como o Homem-Pássaro. E cria uma obra intensa. O diretor mira em Festim Diabólico e acerta nas próprias virtudes. O único plano sequência falseado se transmuta na passagem fluida de tempo e na mise-en-scène pelas quais os personagens confortavelmente se distribuem. Tudo é pensado cuidadosamente, da platéia de homens brancos e idosos prevista pelas palavras duras da filha, Sam (Emma Stone, a um passo da atuação fora do tom) ao curativo imitando a máscara do herói.
A fotografia de Emmanuel Lubezki, como sempre, é magnifíca. E a trilha sonora de Antonio Sánchez praticamente é composta por batidas de bateria, que alterna a percussão entre calma e intensa, como as batidas do coração do nosso protagonista, o ator decadente Reggan Thomson. Um ex-astro de cinema escondido agora em um camarim fétido de um teatro decadente.
O elenco também é ótimo. Naomi Watts é a artista bipolar do teatro perfeita. Edward Norton e Michael Keaton exibem facetas que cairiam direitinho nas suas próprias personas: o primeiro tem fama de brigão e egocêntrico. O segundo viveu seu auge até a década de 1990 pós-Bettlejuice e pré-Batman  e depois teve que se contentar em ser coadjuvante da nova versão do Se Meu Fusca Falasse.
Há também metáforas quadrinísticas a parte.  Riggan pode mover objetos com a mente ou é apenas mais uma alegoria criada por ele para sustentar seu próprio ego?. A dúvida permeia todo o filme e permanece até o fim. Ele levita na sua própria mente e esquece de pagar o táxi. Ou deixa passar sua fama de louco. Ou seria louco pela fama?. Tudo que ele não quer é morrer como Farrah Fawcett, eclipsada pelo fim – no mesmo dia - de outro astro, aquele do Moonwalker. Birdman é cinema, é teatro, é música, é quadrinhos. É amor e poesia de Raymond Carver. Seria a virtude da ignorância e a agonia da perfeição. Mereceu cada estatueta dourada (apesar de Boyhood, que mora no meu coração).
Mas que isso, é seu amigo imaginário mandando você ir à qualquer lugar para perto de onde você deveria estar. O meu mandou eu assistir o filme de novo. Acho que vou obedecer antes de sair voando por aí.

Quadrinhos no Pará
E falando em quadriinhos, o projeto "Sessão Daqui", do Sesc Boulevard em parceria com a Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC), exibirá o documentário “VHQ – Uma breve história dos quadrinhos paraenses”, de Vince Souza que, como o próprio título informa, trata da batalha dos apaixonados pela nona arte no Estado. É um registro inédito e imperdível da união das duas artes sequenciadas em terras amazônicas. A exibição será no dia
18 de março às 18h, no Sesc Boulevard da avenida Castilho França. Prestigiem.

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