segunda-feira, 20 de abril de 2015

A solidão da juventude





(Texto originalmente publicado no caderno Você, coluna Diário Cultural, do jornal Diário do Pará, de 20/04/2015)

  Em 1957, uma jovem pedalava pelas ruas de Paris, seguida por um grupo de garotos. Eles a perseguiam, a observavam atrás das moitas e não a deixavam namorar em paz. Mas as circunstâncias trágicas são capazes de provocar alterações significativas na vida, inclusive nos primeiros momentos da transição entre a infância e a juventude. E era assim, sempre obcecado pelas dores e sabores do crescimento que François Truffaut debutava no cinema com o curta-metragem “Os Pivetes” (Les Mistons, 1957).
Dois anos depois, o mestre francês voltaria ao tema com aquele que é seu melhor filme (segundo ele mesmo) e um dos meus favoritos dentre todos o que tive o privilégio de assistir. Nesses tempos pós-modernos, onde ainda se discute se a redução da maioridade penal irá diminuir a criminalidade, nada melhor que se lembrar do clássico “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups, 1959). Em um período onde a educação era conservadora e a disciplina pedagógica se conquistava através do respeito pelo medo, o filme é uma crítica desafiadora a uma sociedade que tolhia a libertária e natural transgressão dos jovens.
Nada mais solitário que o crescimento. Antoine Doinel é um menino angustiado diante da indiferença dos pais e da falta de adaptação ao rigor da escola. Em um lar conflituoso e pouco acolhedor, Doinel até consegue ter esparsos momentos de felicidade, ao frequentar o cinema em companhia familiar. Mesmo assim, a falta de empatia com o mundo o torna um menino rebelde, capaz de enfrentar a estrutura colegial e cometer pequenos delitos. A incompreensão daqueles que deveriam protegê-lo provoca sentimentos de isolamento e culpa, que talvez uma fuga para a praia, com os pés descalços nas águas salinas do mar possa ajudar a curar, em uma bela cena de encerramento da obra prima francesa. E a produção tem várias desses planos que irão lembrá-los a causa do cinema ser tão apaixonante.
Duas sequências para mim são inesquecíveis: a primeira, que simbolicamente representa toda a visão do filme, é quando o professor de Educação Física marcha pelas ruas com os estudantes e estes vão se desvencilhando da fila indiana, pouco a pouco, fugindo para dentro de lojas e prédios, até só sobrar o docente correndo sozinho. Filmada em diversos planos, principalmente do alto dos prédios, é a representação da genialidade de Truffaut. A segunda, quando Doinel observa a cidade de dentro do camburão do instituto correcional, e pelas grades, começa a chorar. É um momento tão bonito e delicado, que é impossível não se emocionar também.
E foi assim, há cinco décadas, que François Truffaut nos mostrou que não sabíamos lidar com nossos jovens e trazíamos muito sofrimento para eles e para nós. Tanto tempo depois, percebemos que ainda não sabemos. Ou alguém tem alguma dúvida disso quando vemos políticos querendo garotos de 14 anos encarcerados e sem esperanças de futuro?

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