segunda-feira, 29 de junho de 2015

Fé, razão e as muitas imagens de Cristo


(Texto originalmente publicado no Diário do Pará, coluna Diário Cultural, de 29/06/2015)

Há uma cena sensacional em “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli. A armada quixotesca chega à beira de um precipício que só pode ser atravessado por uma desgastada ponte de madeira. Parte da esquadra reluta em passar por ali, mas o pastor religioso os desafia a ter fé que nada vai acontecer. Ele mesmo anda sobre a ponte e começa a pular sobre ela. Então, a madeira se quebra e o pobre missionário se esborracha lá embaixo, dentro de um rio. É só uma amostra dessa comédia fabulosa, mas carrega uma interpretação simbólica forte sobre o embate entre fé e razão.
Nesse conflito, existe uma reflexão importante sobre apropriação semiótica e laicidade do Estado como agente de controle social. O que me leva a pensar sobre todas as reações que a representação da crucificação por uma transexual durante a Parada Gay de São Paulo gerou. Muitas foram positivas e entenderam a encenação, que fazia uma relação entre as injustiças e violências sofridas pelo messias e aquelas que os transgêneros têm de suportar. Por outro lado, houve uma insatisfação ainda maior na internet por causa da apropriação do símbolo maior das religiões cristãs. Há, inclusive, uma corrente parlamentar defendendo a criação de uma lei para criminalizar a “Cristofobia”.
Mas, se essa lei passar, poderemos nunca mais ver novamente a versão corajosa e carnal de Jesus que Scorsese adaptou em “A Última Tentação de Cristo”. Ou o personagem musical de “Jesus Cristo Superstar”. Mais ainda o apresentador de talk show de South Park. E ainda restariam dúvidas sobre a exibição da obra polêmica de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, apoiada em uma estética visual praticamente masoquista. E a TV não deverá mais exibir “O Auto da Compadecida”, onde Ariano Suassuna e Guel Arraes criaram um salvador negro e cheio de dúvidas.
Esse tipo de censura certamente cresceria e faria com que toda e qualquer produção que subverta os “valores” cristãos, hipoteticamente, pudesse ser proibida. O que seria bem ruim para os apaixonados por Godard, já que “Je Vous Salue Marie” é uma das suas películas mais simples e intensas e atualiza, dentro de um contexto social, a história bíblica da anunciação. E nada de Alanis Morissette como Deus em “Dogma” e do diabo encarnado na pobre menina, que joga um padre pela janela em “O Exorcista”. E nem Whoppy Goldberg lideraria um coral de freiras em “Mudança de Hábito” e Steve Martin não seria visto interpretando um pastor charlatão em “Fé Demais Não Cheira Bem”. E não riríamos mais das agruras do novo e atrapalhado salvador em “A Vida de Brian”, do grupo Monty Python.
Se quiserem criminalizar as apropriações de símbolos religiosos por outros atores sociais, vira um grande Deus nos acuda. A sociedade vive de subverter suas próprias regras de convivência. E a cultura é um pilar fundamental nisso. Os censores e fanáticos parecem que não aprendem...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Belém ocupada por cidadania


Belém vive um momento interessante. O poder público “come moscas” e não sabe como criar ações de integração e movimentação social. Para os nossos governantes, a periferia é apenas um local de sobrevivência, onde a população se contentaria com coleta de lixo (ruim, por sinal) e pintura de fachada para praças e escolas. Mas, mesmo os bairros centrais estão entregues à própria sorte, como a Cidade Velha. Felizmente, entidades, movimentos sociais e moradores estão se mobilizando para reocupar os espaços da cidade com programações culturais e estimulando a convivência entre moradores, artistas e pesquisadores.
Já temos ações como o Circular Cidade Velha e a criação do PROA, que promete estimular iniciativas a partir do amplo debate entre os atores sociais envolvidos. O projeto Circular, por exemplo, aproveita a Campina como um bairro histórico e cultural e procura valorizar o local, reutilizando as estruturas e prédios com muitos ensaios, eventos, projeções e exposições, fortalecendo a cultura como negócio e estreitando a relação com que mora ali.
Agora, a Universidade Federal do Pará, através da Faculdade de Comunicação, promove uma programação, esta semana, de comunicação coletiva no bairro da Terra Firme, chamada “Belém 400 anos, sob o olhar do Gueto”. Lá, em várias edificações, serão feitas oficinas de comunicação, produção e debates sobre as problemáticas da periferia. As ações iniciam amanhã, dia 23, e seguem até sábado. É uma atitude importante para a cidade. Primeiro, por integrar a população e depois por usar a estrutura da universidade voltada para onde ela sempre deveria estar: a população no entorno dos campi.  A programação completa está no site da UFPA: www.ufpa.br. A cidade, como espaço de cidadania, agradece.

E3
E na última semana, os gamers ficaram eufóricos com os painéis apresentados na E3, evento do mundo dos jogos eletrônicos comparável a Comic-Con de San Diego quando o assunto é cinema e cultura nerd. Mas, há um aspecto interessante que diferencia os dois segmentos: enquanto no segundo, as exigências são, digamos, mais baixas com relação à qualidade do material apresentado (muitos filmes e séries são ruins, mas como têm suporte pop são louvados com euforia), no primeiro grupo, destaca-se o nível de cobrança dos jogadores: os jogos precisam ter qualidade gráfica, boa jogabilidade e uma história interessante.
Quando falta algum desses elementos, as produtoras são caçadas em fóruns e redes sociais (aconteceu recentemente com Watch Dogs e Assassins Creed Unity, cheios de bugs e histórias repetidas). Por isso, as empresas tentam cada vez mais entregar coisas de qualidade alta e fazer apresentações dignas do Oscar. Marketing sim, mas com um produto final de respeito, é o que fazem Microsoft (Xbox One) e Sony (Playstation 4). Só a Nintendo que parece que parou no tempo. Está correndo sério risco de virar uma Sega em pouco tempo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Penso, logo assisto a filmes




(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural do Diário do Pará, edição de 15/06/15)

Existe muito cinéfilo, por incrível que pareça, que vê os filmes de ficção científica como um tipo de cinema menor, marginal. Talvez o preconceito maior seja por normalmente serem vistos como grandes blockbusters, graças à quantidade de efeitos especiais que demandam e os custos altos de produção.
Até entre os votantes do Oscar existe certo tabu com o gênero, apesar de “Ela” e “Gravidade” terem conquistados os críticos recentemente, com certa razão. Mesmo os clássicos enfrentam resistência, como “Contatos Imediatos do 3º Grau” e “2001 – Uma Odisseia no Espaço.” E “Star Wars” tem detratores na mesma proporção em que existem os fanáticos. Já a minha paixão por ficções tecnológicas existe desde a infância, com o fascínio provocado pela violência de “Mad Max” e a sociedade distópica de “Metrópolis”, película que até fiz uma tatuagem em homenagem.
Eis que, graças ao amigo e também editor do DIÁRIO, Victor Pinto, chega em minhas mãos o livro “Scifi = Scifilo – A Filosofia Explicada pelos Filmes de Ficção Científica” (Ed. Relume, 2005), escrito por Mark Rowlands, um inglês doutor em filosofia e apaixonado pela sétima arte. Mas, não se deixe enganar pelo título de pós-graduação do cara. Não há nenhum sinal de rebuscamento na linguagem da obra. O texto é ágil, bem-humorado e acessível para todos. Rowlands discute os conceitos básicos da Filosofia e seus grandes pensadores, como Platão, Immanuel Kant, Nietzsche e Descartes, relacionando as teorias e debates com sinopses e cenas específicas das produções analisadas.
Aqui, ele discute conceitos relacionados ao sentido da vida, dualismo, hiperrealidade, moral, identidades e a morte em grandes produções, como “Frankenstein”, “Exterminador do Futuro”, “Independence Day”, “Alien”, “Star Wars” e, claro, “Matrix” e “Blade Runner”. São nesses dois últimos a que ele dedica especial atenção, ao questionar filosoficamente as discussões sobre realidade inventada, a relação corpo x mente x espírito e o fim da vida. Para quem já assistiu a todos eles, é ótimo ficar procurando referências e revisitando as propostas dos cineastas. “Matrix” é citado como a obra filosófica por natureza, já que a produção consagra muitas ideias de Descartes. O pensador francês foi o primeiro a imaginar o mundo como um grande simulacro, só que comandado por uma espécie de demônio da dúvida. Os irmãos Wachovski praticamente transformaram a criatura nos robôs que controlam a mente humana e a dúvida se o pensamento torna a existência real ou não. É o tipo de leitura excelente para quem gosta de explorar outras camadas acerca da sétima arte.

CHRISTOPHER LEE
Essa semana morreu o ator Christopher Lee, aos 93 anos. Em se tratando dele, a morte veio no “auge”, já que Lee se mantinha ativo com projetos recentes no cinema e na música. É óbvio que ele sempre será lembrado pelos papéis de vilões, especialmente pelo “Drácula” da Hammer e o mago Saruman da trilogia do “Senhor dos Anéis”. Mas o ator também fez grandes filmes B como ator principal, como o “Expresso do Horror”. Vale a pena revisitar sua obra.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A desert ópera de Mad Miller




(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural do Diário do Pará, do dia 01/06/15)

O nome do filme é “Mad Max – Estrada da Fúria”, mas bem que poderia se chamar Mad Miller. Sim, o trocadilho com o nome do diretor George Miller é infame, porém não mais que a própria produção. E isso, se tratando da série, não é um defeito. Pelo contrário, é justamente a insanidade presente em cada quadro que transforma a nova saga apocalíptica do vingador solitário em um ótimo filme de ação.
Nas mãos de um cineasta menor, o fiapo de roteiro seria uma catástrofe gigante. Porém, Miller não tem idade para isso e nem é inexperiente para hesitar. Em cima da trama onde a água e o petróleo são os bens mais preciosos do mundo, o cineasta constrói sua “desert ópera” montada em cima de uma loucura visual com oléo, gasolina, sangue e areia. São duas horas de uma história em quadrinhos da revista Heavy Metal, com todo rock, couro e alucinação sci-fi a que se tem direito, comandada por um senhor de 70 anos. E você não imagina que este mesmo velhinho é responsável por “Babe – O Porquinho Atrapalhado” e “Happy Feet – O Pinguim”.
A experiência do australiano é notada em tela. Ele sabe enquadrar os personagens e as cenas, mesmo quando estas exigem dezenas de carros monstruosos em tela e longos planos abertos. A montagem é precisa e foge do padrão atual esquizofrênico de cortes rápidos e secos, que impede que saibamos o que se passa em tela (algo popularizado por Michael Bay e sua série horrorosa do “Transformers” e, infelizmente, levado a sério por Joss Whedon no segundo “Vingadores”).
A fotografia também é espetacular. O uso de tons de vermelho e azul reforça o clima árido e sem esperança do local, apesar das belas paisagens que o deserto proporciona. Lembrou-me muito outro filme feito no deserto e colorizado com tons fortes: “Razorback”, um trash absurdo sobre um javali assassino gigante, mas bem filmado por Russel Mulcahy (outro maluco da terra dos cangurus que criou a série “Highlander”). O design de produção merece muitos prêmios. Os carros são cheios de detalhes impressionantes, com destaque para os parecidos com porcos-espinhos. E, óbvio, o veículo-aparelhagem com o guitarrista flamejante, que deve se tornar um ícone cult do cinema.
Sobre os atores, Tom Hardy substitui Mel Gibson à altura. Ele acerta no tom do personagem, que parece mais animalesco e duro, após anos de sofrimento com a quase extinção da humanidade. Hugh Keays-Byrne pouco pode fazer por baixo da maquiagem do vilão, mas é engraçado ver o ator de volta depois de ser o impiedoso Toecutter do primeiro filme da franquia, de 1979. Maquiagem esta que está perfeita, ao mostrar que a maioria dos seres humanos está doente e definha sob o calor e a radiação pós-hecatombe nuclear. Ou os fanáticos que parecem ter uma doença mutante parecida com hemofilia.
Por fim, é claro que ia falar separadamente de Charlize Theron e sua Imperatriz Furiosa. Poderosa, intensa e decidida, não lembra em nada uma mocinha em perigo das películas de ação. É o motor V8 da trama, possuindo uma força feminina pouco vista em Hollywood. Daí a chiadeira dos fundamentalistas pelo mundo. Com a bilheteria que a obra vem tendo mundialmente e a aclamação praticamente unânime da crítica, o diretor tem razão em ignorar os machistas. Que venham outras furiosas nas próximas sequências.