segunda-feira, 27 de julho de 2015

Pequenas mudanças, grandes negócios






Quando as primeiras informações sobre o filme do Homem Formiga começaram a ser divulgadas, muitos estranharam a trama completamente insólita que cercava o personagem da Marvel: trata-se de um herói com a capacidade de reduzir seu tamanho para proporções minúsculas e que tem o poder de controlar as formigas. Mas esse espanto atingiu apenas quem não conhece as histórias em quadrinhos. Ant-Man não só é um dos heróis principais da chamada “era de prata” das HQs (em meados das décadas de 1960 e 1970 e o auge da influência de Stan Lee), como foi um dos fundadores dos Vingadores.
No artigo que escrevi sobre “Os Vingadores 2”, disse que o roteiro me incomodava pela necessidade da Marvel sempre querer estabelecer tons grandiosos nas sequências de sua mitologia planejada de filmes. E tome destruição, batalhas homéricas e cenas de ações coletivas. Pois “Homem Formiga”, ainda bem, vai na direção contrária. Por ter em mãos um protagonista praticamente desconhecido do grande público, assim como James Gunn teve em “Os Guardiões das Galáxias”, o diretor Peyton Reed recebeu menos pressão para entregar um produto ambicioso. Assim, temos um filme leve e divertido, apesar dos óbvios problemas de roteiro e atuações.
Paul Rudd e Michael Douglas estão completamente à vontade nos papéis de Scott Lang e Hank Pym (O Formiga original e o cientista criador da fórmula da diminuição, além de mentor de Lang). Por outro lado, Evangeline Lilly e Corey Stoll forçam a barra para dar conta dos seus personagens. Lilly deve ser a Vespa dos próximos Vingadores e parece engessada na sofrida Hope Van Dyne. Já Stoll é o vilão mais caricato de todos os filmes do universo da editora até agora. E o roteiro apela muito para coincidências e clichês sentimentais para dar certo, apesar de equilibrar bem o humor e a ação.
A direção de arte é espetacular e consegue dar verossimilhança nas sequências que envolvem a diminuição do herói. Há duas cenas exemplares: quando Lang precisa diminuir até o nível subatômico, com direito a bactérias e fractais. A outra é a já conhecida batalha em uma maquete de trem de brinquedo. Esta cena, em particular, é engraçada por brincar com a noção de espaço e profundidade do público. Se bem que, é provável que as principais gags visuais tenham saído da mente de Edgar Wright. Este chegou a iniciar a pré-produção como diretor, mas teve que abandonar a obra por “diferenças criativas” com o estúdio e acabou creditado apenas como produtor e roteirista (junto com o parceiro Joe Cornish, do ótimo “Ataque ao Prédio”).
Como já dito, não faço parte dos que torcem o nariz para o pouco nível de profundidade que a Marvel imprime aos seus filmes. Considero bons passatempos, e “Homem Formiga” consegue se conectar ao universo maior da editora, mesmo sendo um produto a princípio desacreditado pelos fãs dos quadrinhos e dos blockbusters. Nesse caso específico, a Marvel acerta por entender que, com o perdão do trocadilho quase infame, “menos é mais”.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

As noites alucinantes estão de volta





(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural de 13/07/2015, no jornal Diário do Pará)

A Comic-Con de San Diego já se consolidou como o segundo maior evento de divulgação para o cinemão americano, perdendo apenas, claro, para o Oscar. Os produtores da indústria milionária estão preocupados cada vez mais com as cifras, por perder espectadores para a transmissão on-demand e para a TV e, por isso, têm que mostrar espetáculos sempre maiores. E o evento é uma grande plataforma para isso, pois costuma atrair bastante público e formadores de opinião sobre cultura pop. E ainda abre espaço para séries e quadrinhos. Atores, diretores e roteiristas se esbaldam com a recepção do público, que vibra a cada menor teaser mostrado.
Entre franquias de heróis, um trailer em particular me agradou bastante (afinal, não espero muito desse crossover entre Batman e Superman): Ash vs Evil Dead. E, por motivos óbvios: sou fã dos filmes originais dirigidos por Sam Raimi. Se o primeiro abusava da trasheira típica dos diretores de terror iniciantes, os outros dois usavam o orçamento mais polpudo para apelar ao bem vindo nonsense. Assim, Raimi praticamente criou um novo tipo de gênero: a comédia trash tresloucada. Foi uma influência definitiva para outros diretores, como Peter Jackson (assistam Fome Animal). Na prévia da nova série da Starz, parece que esse espírito da trilogia permanece vivo. Raimi é o produtor executivo da bagaça e apela para todo tipo de bizarrice no intuito de fazer o negócio dar certo: zumbis, bruxas, protagonistas palermas, mulheres duronas, mortes com muito gore e uma celebrada motosserra de braço.
E, como esperado, o nome da história está de volta. Bruce Campbell está muito a vontade no papel que o levou para o (quase) estrelato. Na verdade, o ator nunca conseguiu se livrar do rosto de Ash, mas parece que nunca se importou muito com isso e sempre aproveitou bem as caras e bocas dele em meio ao apocalipse. Ele é destaque em outro filme que adoro: Bubba-ho-Tep, onde interpreta Elvis Presley idoso, internado em um asilo, que deve enfrentar uma múmia monstruosa que está matando os velhinhos. Sim, essa é a premissa mesmo. E lembramos também de suas rápidas, mas engraçadas participações nos três filmes do Homem-Aranha, para onde Sam Raimi levou muitas das suas ideias de Evil Dead.
Ash vs Evil Dead já está na lista de séries a acompanhar este ano. A estreia é em outubro. Vamos abrir o Necronomicon novamente!.

Adeus,
Doutor Jivago
E o mundo do cinema continua a dar adeus aos grandes atores da era do glamour em Hollywood. Dessa vez foi o egípcio de rosto marcante e dentes separados, Omar Sharif. Ele será lembrado eternamente como o doutor Jivago, mas Sharif também se destacou em outro trabalho de David Lean, Lawrence da Arábia, junto com Peter O’Toole, que também se foi recentemente. Acho sensacional a participação dele no besteirol Top Secret! – Super Confidencial, como um espião que é capaz de se camuflar em qualquer lugar. Sharif faz parte de uma geração que está se despedindo da vida. Dick Van Dyke morreu também há duas semanas. Mickey Rooney e Lauren Bacall, ano passado.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mentes brilhantes




 (Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural, do jornal Diário do Pará de 06/07/15)

Após três relativos fracassos seguidos, a Pixar resolveu deixar nas mãos de Pete Docter a missão de reerguer a empresa para as bilheterias e a crítica. Docter era a figura certa para isso. Da mente dele, saíram duas das animações mais elogiadas e criativas da empresa: Monstros S/A e Up – Altas Aventuras. Além, claro, de ter colaborado nos roteiros da trilogia Toy Story e Wall-e.
Bem, já nos primeiros minutos de Divertida Mente (uma tradução bem ruim para o nome original Inside Out), percebemos que ele conseguiu. O diretor já havia flertado bastante com o improvável e o realismo fantástico em suas histórias, mas dessa vez ele foi bem longe. Mas especificamente, dentro do cérebro de uma criança e suas infinitas possibilidades.
O desafio maior, claro, era conseguir personificar todos os sentimentos humanos que estão dentro daquela caixa de ossos dentro da nossa cabeça. Principalmente quando se trata de um ser humano em formação física e psicológica.  Parece que Pete Docter criava o roteiro com um psicanalista ao lado, corrigindo e ditando detalhes.
E a história? Bem, a narrativa mostra o conflito entre os cincos sentimentos que habitam a mente da garota (Medo, Alegria, Tristeza, Nojinho e Raiva) e como eles entram em conflito quando Alegria e Tristeza se perdem naquele universo expandido e precisam se juntar para retornar ao “centro de comando”, onde as memórias são pequenas cápsulas, guardadas de acordo com os sentimentos envolvidos e sua função. Aqui, temos as memórias de base (as mais brilhantes), que marcam momentos eternos; memórias de longo prazo, que são enviadas para “ilhas” de convivência e as esquecidas, que são jogadas em um limbo escuro e sombrio.
 O design de produção é simplesmente espetacular. Pensem (opa), em como é difícil personificar conceitos tão rebuscados como o de pensamentos abstratos (atalhos para a imaginação) e de sonhos (produzidos como sitcons). Parece complicado? Não se preocupe, a Pixar não deixa você se perder. Há algo de surreal, gótico, perturbador ainda aqui. São ecos de Neil Gaiman e Além da Imaginação. Mas também é colorido e divertido como uma boa animação da produtora. E o roteiro consegue desenrolar esse “novelo” complicado sem apelar para didatismo exagerados.
Há um processo de construção de amadurecimento humano aqui, além da busca da felicidade em meio a rompantes alegres e de melancolia. E o resto dos espaços é preenchido com gags inspiradas (as cenas finais e situações chaves que tornariam o roteiro um dos favoritos ao Oscar). Falando na Academia, o quesito de animação já foi carimbado e John Lasseter pode reservar um espaço na estante para mais esta estatueta.
Divertida Mente é um filme imperdível para crianças e adultos. E leve lenços de papel. Você vai precisar. Principalmente depois de poder relembrar seus amigos imaginários.