segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mentes brilhantes




 (Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural, do jornal Diário do Pará de 06/07/15)

Após três relativos fracassos seguidos, a Pixar resolveu deixar nas mãos de Pete Docter a missão de reerguer a empresa para as bilheterias e a crítica. Docter era a figura certa para isso. Da mente dele, saíram duas das animações mais elogiadas e criativas da empresa: Monstros S/A e Up – Altas Aventuras. Além, claro, de ter colaborado nos roteiros da trilogia Toy Story e Wall-e.
Bem, já nos primeiros minutos de Divertida Mente (uma tradução bem ruim para o nome original Inside Out), percebemos que ele conseguiu. O diretor já havia flertado bastante com o improvável e o realismo fantástico em suas histórias, mas dessa vez ele foi bem longe. Mas especificamente, dentro do cérebro de uma criança e suas infinitas possibilidades.
O desafio maior, claro, era conseguir personificar todos os sentimentos humanos que estão dentro daquela caixa de ossos dentro da nossa cabeça. Principalmente quando se trata de um ser humano em formação física e psicológica.  Parece que Pete Docter criava o roteiro com um psicanalista ao lado, corrigindo e ditando detalhes.
E a história? Bem, a narrativa mostra o conflito entre os cincos sentimentos que habitam a mente da garota (Medo, Alegria, Tristeza, Nojinho e Raiva) e como eles entram em conflito quando Alegria e Tristeza se perdem naquele universo expandido e precisam se juntar para retornar ao “centro de comando”, onde as memórias são pequenas cápsulas, guardadas de acordo com os sentimentos envolvidos e sua função. Aqui, temos as memórias de base (as mais brilhantes), que marcam momentos eternos; memórias de longo prazo, que são enviadas para “ilhas” de convivência e as esquecidas, que são jogadas em um limbo escuro e sombrio.
 O design de produção é simplesmente espetacular. Pensem (opa), em como é difícil personificar conceitos tão rebuscados como o de pensamentos abstratos (atalhos para a imaginação) e de sonhos (produzidos como sitcons). Parece complicado? Não se preocupe, a Pixar não deixa você se perder. Há algo de surreal, gótico, perturbador ainda aqui. São ecos de Neil Gaiman e Além da Imaginação. Mas também é colorido e divertido como uma boa animação da produtora. E o roteiro consegue desenrolar esse “novelo” complicado sem apelar para didatismo exagerados.
Há um processo de construção de amadurecimento humano aqui, além da busca da felicidade em meio a rompantes alegres e de melancolia. E o resto dos espaços é preenchido com gags inspiradas (as cenas finais e situações chaves que tornariam o roteiro um dos favoritos ao Oscar). Falando na Academia, o quesito de animação já foi carimbado e John Lasseter pode reservar um espaço na estante para mais esta estatueta.
Divertida Mente é um filme imperdível para crianças e adultos. E leve lenços de papel. Você vai precisar. Principalmente depois de poder relembrar seus amigos imaginários.  

Nenhum comentário: