segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Os Grilhões do Passado


Você sabe que Os 8 Odiados é um filme de Quentin Tarantino quando o cineasta consegue colocar no mesmo “balaio” visual referências a filmes como Meu Ódio Será Tua Herança e O Enigma do Outro Mundo, além de uma obra clássica da literatura como O Assassinato no Expresso Oriente. Ou seja, a película tem elementos de westerns, terror e suspense, ao mesmo tempo em que não é nenhum dos 3 gêneros. Parece confuso? A intenção, claramente, é essa.
O ponto de partida é a história de 9 desconhecidos (isso mesmo, são 9 e não 8 personagens. Trata-se de mais uma ironia tarantinesca, já no título da obra: é o seu 8º filme e remete também a 8 ½, de Federico Fellini) que ficam presos em uma cabana enquanto aguardam a passagem de uma nevasca. A tensão é crescente e as intenções são desnudadas aos poucos. Esse “nada é o que parece” é reforçado pela atmosfera pesada e melancólica da trilha do mestre Ennio Morricone e pelo design de produção fantástico, que transforma o, quase, único cenário do filme em uma prisão natural ora claustrofóbica, ora estranhamente acolhedora.
Os 8 Odiados também é puro teatro, perfeito para que os atores brilhem. Cada um a seu tempo. Por outro lado, há Samuel L. Jackson. É dele a maior atenção da câmera, sempre bem posicionada, de Tarantino. Um personagem bem blaxplotation (produções negras da década de 1970) perdido em um faroeste macarrônico. Ele também é quem carrega o Mcguffin (elemento simbólico que move a narrativa, como a mala dourada de Pulp Fiction) da vez. A suposta carta de Abrahan Lincoln ao personagem Major Marquis  não é aleatória. E por estar nas mãos de um negro causa estranhamento e conflitos, além de ter um papel determinantemente simbólico no ato final do filme.
A “cabana do Terror” é o microcosmo perfeito da democracia americana. Aqui temos, de novo, uma representação da genialidade da película. Ao juntar vários extratos sociais distribuídos entre personagens diferentes, Quentin Tarantino cria um pequeno embate entre a política representativa e aquela que privilegia determinados grupos sociais. Mexicanos, negros, mulheres, brancos, racistas, europeus colonizadores.  Está tudo ali. Uma aula da história americana se você prestar atenção nas entrelinhas.
A propensão do filme ao gore e a histeria não é por acaso. O autor atira nas referências à Don Siegel e Sergio Leone, e também acerta em Dario Argento e Lucio Fulci. Os embates de sangue são desenhados com uma costura narrativa impressionante. E diálogos afiadíssimos, como de habitual.  Tarantino não tem pressa em criar um clímax para a história, se é que ele existe. E tome flashbacks, tensões não-realizadas e variações entre closes e planos abertos. Referências sempre presentes em um autor que não tem medo de se reinventar mantendo seu avatar no devido status quo. Ao manipular seus conceitos de ética e violência, Tarantino é tão odiado quanto seus personagens. Mas pode ser amado na mesma proporção, graças ao seu cinismo por trás das câmeras. E nesse exemplar temos um diretor transformando o barulho, provocado pelos pesados grilhões que o prendem ao seu passado no cinema, em música. 

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