segunda-feira, 4 de julho de 2016

Um encontro épico. Mas não muito...


Zack Snyder ainda tinha um pouco de crédito comigo como diretor de cinema. Afinal, fez os ótimos “Madrugada dos Mortos” e “Watchmen” (que acho um grande filme subestimado). Mas, parece que ele desaprendeu a fazer adaptações e vem num declínio digno de M. Night Shyamalan. A diferença é que o diretor de “O Sexto Sentido” tem investido seu tempo em filmes pequenos, enquanto que Snyder dirigiu o maior embate dos quadrinhos, sonhado por milhões de fãs e que, finalmente, chegou aos cinemas: “Batman vs Superman – A Origem  da Justiça”.
Bem, finalmente os leitores têm seu desejo atendido pela DC Comics, editora dos dois grandes heróis. A má notícia é que o filme é ruim de dar dó. Era quase impossível a história dar errado. Há muito material disponível nos gibis, prontos para serem projetados em tela grande. Mas Snyder parece que preferiu ouvir o próprio ego, o que já tinha prejudicado “O Homem de Aço”, aquela película horrorosa que adaptou novamente a origem do kriptoniano.
Zack Snyder está tão perdido aqui que o único fio condutor que une este filme com “Man of Steel” é a maior falha daquele: o fato do herói destruir prédios nas lutas com os vilões, sem se importar com as pessoas e com a destruição da cidade de Metrópolis. A irresponsabilidade inacreditável do personagem atinge diretamente o Homem-Morcego, que perde amigos com a queda do prédio da sua empresa na cidade. Assim, ele resolve caçar o rival.
Batman também não é favorecido aqui. Sua origem é repetida com cenas praticamente idênticas ao filme do Christopher Nolan. E as motivações de Bruce Wayne são de matar, literalmente. Nem sua veia de detetive aparece, já que ele se perde em buscas tolas e sem sentido. Snyder explora o paralelo entre o arquétipo do herói, em Clark Kent e Jesus Cristo. Porém, sem nenhuma sutileza. A fotografia aposta em tons excessivamente escuros, que dificulta o entendimento do que acontece em várias cenas. A direção é pouco inspirada, focada em cenas forçadamente épicas, com câmeras lentas e muito barulho. Um nada criativo elemento narrativo da quebra de um colar de pérolas se despedaçando pelo chão também aparece. A estética é cafona ao extremo e o roteiro é bem fraco.
Há coisas estranhas demais. Gotham e Metrópolis estão a uma travessia de balsa de distância e, mesmo assim, os heróis se portam como completos desconhecidos um do outro. A narrativa desrespeita o senso de ética e justiça dos dois icônicos símbolos da arte sequencial. Até o compositor Hans Zimmer, que dispensa apresentações, não foi muito feliz na trilha sonora, apelando para temas dramáticos excessivos e repetitivos. O que ainda salva a produção do desastre total, vá lá, é o elenco, que se esforça para dar alguma dignidade a diálogos enfadonhos e construção dramática forçada.
Henry Cavill e Bem Affleck são bons atores, além de estarem rodeados por um círculo respeitável de coadjuvantes como Holly Hunter, Diane Lane e Jeremy Irons. Por outro lado, Jesse Eisenberg força a mão como um Lex Luthor da geração “Millenials”. Seus risos e trejeitos nos fazem ter saudades de Gene Hackman no papel. Um filme esquecível, infelizmente. Nesse ritmo, a DC deve continuar levando uma surra da Marvel. Quando o assunto é cinema, claro.

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