terça-feira, 18 de abril de 2017

Tudo de novo no front


 Os 5 gênios do cinema que estiveram diretamente envolvidos na Segunda Guerra Mundial

Quem gosta de cinema, não apenas como entretenimento, mas como fonte de construções semióticas e sociais, não pode deixar de assistir Five Came Back (2016), produzido e disponível na plataforma Netflix. O documentário é uma aula de cinema. Não apenas como estética e difusão de sentidos, mas também como aparato comunicativo, capaz de mobilizar as massas para objetivos construídos por governos e ideologias. No caso específico desta obra, retrata a participação de cineastas famosos em um período negro da história: a 2ª Guerra Mundial.
Five Came Back é dirigido por Laurent Bouzereau  e acompanha a atuação de  5 dos maiores diretores da História durante o conflito: John Ford, William Wyler, John Huston, Frank Capra e George Stevens. Todas as passagens são narradas pela atriz Meryl Streep e conta com intervenções e opinião de outros grandes cineastas atuais: Steven Spielberg (que também é produtor aqui), Lawrence Kasdan, Paul Greengrass, Guillhermo Del Toro e Francis Ford Coppola.
O filme é estruturado em 3 fases: antes da guerra, durante e depois, desnudando como as feridas bélicas deixaram marcas profundas na alma daqueles artistas, influenciando sua vida pessoal e, por conseguinte, as produções que chegaram às telas grandes. Tudo entrecortado com cenas das produções e entrevistas dos próprios personagens. Um documento precioso e necessário para as futuras gerações.
O interessante do filme é relatar como o quinteto “entendeu” a guerra, seguindo por caminhos diferentes, entre alistamentos, participações diretas em conflitos, a luta contra a burocracia e as negociatas para divulgar as filmagens. Mas também mostra como todo o imaginário das batalhas foi manipulado para obter apoio popular. Esse “esforço” de guerra se constrói, muitas vezes, em pilares eticamente questionáveis, como a encenação de mortes, além da estereotipação e preconceitos contra os inimigos. Os japoneses, por exemplo, são retratados como formigas, de hábitos selvagens e visão diminuta, um clichê que perdurou por muitos anos no próprio cinema.
Por outro lado, não dá para diminuir tudo que foi feito, como produção artística. Mesmo em situações tensas ou tristes, é fácil perceber como Ford, Wyler, Huston, Capra e Stevens deixaram uma assinatura autoral e lutaram bastante, literalmente, para que o cinema não perdesse sua alma, entre bombas, trincheiras, aviões e cadáveres. É o Cinema com C maiúsculo, cru e cruel. A arte em estado puro.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A volta do que não foi



M. Night Shyamalan era um caso praticamente perdido quando entrava nas rodas de conversas dos cinéfilos. Depois de iniciar a carreira em Hollywood com dois clássicos (O Sexto Sentido e Corpo Fechado) e um filmaço (Sinais, no qual ele estava mais inspirado), o diretor veio em uma decadência cinematográfica de dar pena, com obras menores (Fim dos Tempos, apesar de cenas espetaculares) e que culminou com bobagens do nível O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013).
Para recuperar o prestígio, ele teve de voltar ao cinema independente e esquecer a megalomania habitual. Primeiro, foi o elogiado A Visita (2015) e agora colhe um grande sucesso de bilheteria com Fragmentado (2016). Há boas e más notícias aqui. A boa é que o indiano ainda tem lenha para queimar quando o assunto é talento cinematográfico. Ele sabe conduzir o espectador nas cenas mais tensas. E também consegue tirar boas surpresas das tramas, como a chocante revelação em relação ao comportamento de determinada personagem nos flashbacks. A má é que ele força a mão na maior parte do tempo.
Um roteiro (escrito pelo próprio) sobre um rapaz com 23 personalidades que sequestra 3 jovens e as mantêm no cárcere, exige uma seriedade que, muitas vezes, falha ao cineasta. Em alguns casos, ele apela para um humor involuntário que já havia investido em A Dama na Água e Fim dos Tempos. Fora os personagens que não têm função nenhuma na trama e servem apenas para aumentar o tempo de duração da película. Para piorar, em algumas cenas, Shyamalan “força” o suspense, como quando a personagem Casey (Ana Taylor-Joy,excelente) demora para virar a cabeça e olhar para o suspeito, em uma atitude que não combina com o momento.
Outro problema é a indefinição sobre o tipo de teoria que o filme quer abarcar: se o científico ou o sobrenatural. Aí, o plot envolvendo as teorias e diálogos da psicológa Karen Fletcher (a veterana atriz Betty Buckley) se perde quando a história pende para o realismo fantástico no terceiro ato. Então o diretor joga toda a responsabilidade nas costas de James McAvoy e este assume as rédeas de sua interpretação com genialidade. A maneira como o astro consegue mudar a fisionomia e os gestos repentinamente, de acordo com a persona que está controlando a sua mente, é impressionante.
O grande recado de Fragmentado é que o talentoso indiano quer refletir novamente os seus ídolos Alfred Hitchcock e Brian de Palma, mas só consegue enxergar o próprio rosto no espelho. Talvez, agora, com mais confiança e com menos chances de fracasso, ele volte a ser aquele diretor que nos deixava com as mãos suando no cinema em outras eras. É o que os apaixonados pelo bom cinema esperam.