quarta-feira, 5 de abril de 2017

A volta do que não foi



M. Night Shyamalan era um caso praticamente perdido quando entrava nas rodas de conversas dos cinéfilos. Depois de iniciar a carreira em Hollywood com dois clássicos (O Sexto Sentido e Corpo Fechado) e um filmaço (Sinais, no qual ele estava mais inspirado), o diretor veio em uma decadência cinematográfica de dar pena, com obras menores (Fim dos Tempos, apesar de cenas espetaculares) e que culminou com bobagens do nível O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013).
Para recuperar o prestígio, ele teve de voltar ao cinema independente e esquecer a megalomania habitual. Primeiro, foi o elogiado A Visita (2015) e agora colhe um grande sucesso de bilheteria com Fragmentado (2016). Há boas e más notícias aqui. A boa é que o indiano ainda tem lenha para queimar quando o assunto é talento cinematográfico. Ele sabe conduzir o espectador nas cenas mais tensas. E também consegue tirar boas surpresas das tramas, como a chocante revelação em relação ao comportamento de determinada personagem nos flashbacks. A má é que ele força a mão na maior parte do tempo.
Um roteiro (escrito pelo próprio) sobre um rapaz com 23 personalidades que sequestra 3 jovens e as mantêm no cárcere, exige uma seriedade que, muitas vezes, falha ao cineasta. Em alguns casos, ele apela para um humor involuntário que já havia investido em A Dama na Água e Fim dos Tempos. Fora os personagens que não têm função nenhuma na trama e servem apenas para aumentar o tempo de duração da película. Para piorar, em algumas cenas, Shyamalan “força” o suspense, como quando a personagem Casey (Ana Taylor-Joy,excelente) demora para virar a cabeça e olhar para o suspeito, em uma atitude que não combina com o momento.
Outro problema é a indefinição sobre o tipo de teoria que o filme quer abarcar: se o científico ou o sobrenatural. Aí, o plot envolvendo as teorias e diálogos da psicológa Karen Fletcher (a veterana atriz Betty Buckley) se perde quando a história pende para o realismo fantástico no terceiro ato. Então o diretor joga toda a responsabilidade nas costas de James McAvoy e este assume as rédeas de sua interpretação com genialidade. A maneira como o astro consegue mudar a fisionomia e os gestos repentinamente, de acordo com a persona que está controlando a sua mente, é impressionante.
O grande recado de Fragmentado é que o talentoso indiano quer refletir novamente os seus ídolos Alfred Hitchcock e Brian de Palma, mas só consegue enxergar o próprio rosto no espelho. Talvez, agora, com mais confiança e com menos chances de fracasso, ele volte a ser aquele diretor que nos deixava com as mãos suando no cinema em outras eras. É o que os apaixonados pelo bom cinema esperam.

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